top of page

Resenha: John Coltrane - Sun Ship

  • Foto do escritor: Eduardo Raddi
    Eduardo Raddi
  • 3 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 6 de set. de 2025

Gravado com meses de diferença para Love Supreme e lançado cinco anos após a sessão, Sun Ship é um disco esquecido porém essencial do lendário saxofonista.


Gravado em 1965, fora do estúdio de Rudy Van Gelder, e lançado apenas quatro anos após o falecimento de Coltrane, Sun Ship é um disco que acabou não ganhando tanto prestígio quanto outras obras do saxofonista, mas nem por isso deixa de ser um de seus trabalhos mais poderosos.


Explosivo, intenso, destruidor e, ao mesmo tempo, sublime — são alguns dos adjetivos que me vieram à mente para expressar o que senti ao ouvir Sun Ship, um dos discos menos comentados da vasta discografia de um dos mais prolíficos e icônicos instrumentistas e compositores da história — não só do jazz, mas de toda a música.


Coltrane ao lado de Mccoy Tyner. (Foto: Reprodução/Jazz Desk)
Coltrane ao lado de Mccoy Tyner. (Foto: Reprodução/Jazz Desk)

O LP, lançado em 1971, é uma das últimas sessões gravadas pelo quarteto clássico de Coltrane — a mesma formação do cultuado A Love Supreme — com o pianista McCoy Tyner (que deixaria o grupo no final de 1965 para formar seu próprio trio), o baixista Jimmy Garrison e o lendário baterista Elvin Jones (que sairia um ano depois para tocar com Duke Ellington). John Coltrane toca sax tenor, embora, na foto da capa, apareça com o sax soprano.


Sun ship

Gravado poucos meses após A Love Supreme e profundamente influenciado pelo free jazz do proeminente saxofonista Albert Ayler, Coltrane seguiria até o fim da vida numa busca incessante por sons mais experimentais. Foi nesse contexto de exploração que o quarteto deu à luz Sun Ship, marcando um ponto essencial em sua fase de “transmutação” sonora e ruptura com os próprios paradigmas musicais — uma passagem do período de investigação técnica e refinamento para outro de liberdade artística pura, intuitiva e espiritual.


Coltrane quarteto free jazz
Coltrane e seu quarteto lendário (Foto: Reprodução/Brieze)

Após quatro anos de ensaios, o entrosamento do quarteto atinge, neste disco, um nível quase transcendental, em um meio-termo entre o experimentalismo extremo de Ascension (gravado apenas dois meses antes) e alguns elementos rítmicos que remetem ao espírito de A Love Supreme. O álbum consiste em cinco faixas:


“Sun Ship”: Abre o disco com uma potência sônica absolutamente avassaladora, que já coloca o ouvinte a par do que está por vir. Coltrane começa com frases em staccato que, de repente, dão lugar a uma improvisação rítmica intensa e caótica — no melhor sentido da palavra. Todos os músicos solam em um caos assustadoramente organizado. Elvin Jones executa, por alguns segundos, uma levada be-bop veloz que logo se dissolve em viradas monstruosas e prolongadas. A faixa termina abruptamente, com um forte toque no prato de condução.


“Dearly Beloved”: “— Ready?” — diz Coltrane, logo antes do início da faixa, uma espécie de balada cósmica em que o saxofonista emite ondas assimétricas de som. Tyner surfa no piano com improvisos ágeis, enquanto Garrison desliza pelo contrabaixo, seguindo os tempos marcados com agressiva precisão por Elvin Jones, que toca com baquetas timpani.


Elvin Jones Coltrane
(Foto: Reprodução/Reddit)

“Amen”: A levada be-bop que Elvin havia ensaiado brevemente na faixa-título se desenvolve aqui com mais intensidade. A música cresce progressivamente, começando com uma aula quase esotérica de dinâmica entre os músicos da base rítmica, que tocam sem Coltrane por cerca de quatro minutos, até a entrada absolutamente triunfal do saxofonista — um momento de monumental catarse. É o clímax do disco.


“Attaining”: A intensidade arrebatadora de “Amen” dá lugar a uma faixa que soa como a descida do cume de uma montanha colossal. O quarteto mantém a mística, agora mais introspectiva, em uma performance que ainda carrega o fervor espiritual.


“Ascent”: Na faixa de 10 minutos que encerra o álbum, Garrison inicia com um solo de contrabaixo de cinco minutos. A entrada da bateria de Elvin, assimétrica e inquieta, prepara o terreno para o restante da banda, que se junta em uma construção sonora que, aos poucos, se dissipa — até restar apenas Garrison, encerrando o disco sozinho com um último acorde grave e meditativo.


LP álbum John Coltrane
Capa 'Gatefold' do LP.

Sun Ship é uma comunhão sublime de dimensões quase esotéricas, uma demonstração de sinergia absoluta entre músicos virtuosos, que alcançam momentos catárticos de proporções quase incompreensíveis. É fantástico, monumental.Se Coltrane alcança o céu em A Love Supreme, aqui ele vai além.


Vale mencionar também que este é um dos únicos álbuns de Coltrane que não foram gravados no estúdio de Rudy Van Gelder. As razões, segundo as notas do relançamento em CD de 1995, “se perderam no tempo”.


Comentários


Todos os direitos reservados. Som do Raddi

bottom of page