Um passeio pela carreira de Billy Higgins em 6 clássicos do jazz
- Eduardo Raddi

- 3 de set. de 2025
- 4 min de leitura
Dos primórdios do free jazz aos clássicos da Blue Note, um mergulho por seis gravações fundamentais na trajetória do baterista

Pulsando entre as batidas de Ornette Coleman e os grooves de Herbie Hancock, Billy Higgins construiu uma trajetória que atravessa importantes capítulos do jazz moderno. Californiano de nascimento e músico de alma expansiva, o baterista começou tocando na banda de apoio de Bo Diddley.
Em 1953, formou ao lado de seu colega de faculdade, Don Cherry, os Jazz Messiahs - um dos primeiros grupos a explorar o território ainda indefinido do free jazz. Com um pé no rhythm and blues de Bo Diddley e outro nas experimentações que sacudiriam o mundo do jazz, Higgins se destacava justamente por sua fluidez entre universos sonoros. Não demorou para que sua batida precisa e criativa se tornasse familiar nos estúdios da Blue Note, o mais importante selo do jazz.

O passo seguinte foi integrar a banda de Ornette Coleman, então um desconhecido saxofonista texano que mal conseguia se sustentar com a música. Higgins e Cherry participaram das primeiras apresentações de Coleman, que causavam espanto e impacto em plateias ainda pouco familiarizadas com aquela sonoridade profundamente transgressora. A dupla também gravou os principais álbuns do saxofonista: Something Else!!!!, The Shape of Jazz to Come, Change of the Century e Science Fiction.
Com sensibilidade para o hard bop e fluidez para as abstrações do free, Higgins se tornou um baterista requisitado, colaborando com músicos de peso e ajudando a moldar os rumos do jazz moderno. A seguir, seis gravações fundamentais que ilustram bem sua trajetória brilhante.
Ornette Coleman – The Shape of Jazz to Come (1959)

Obra-prima inaugural do free jazz, este álbum é um marco incontornável na história do gênero. Com Don Cherry no trompete, Charlie Haden no baixo e Billy Higgins na bateria, The Shape of Jazz to Come apresenta uma nova abordagem para o improviso, rompendo com estruturas harmônicas convencionais. Higgins é peça-chave aqui: sua bateria mantém o pulso livre e expressivo, sem jamais engessar o fluxo criativo do grupo.
Herbie Hancock – Takin’ Off (1962)

Um disco clássico com um time de craques selou a estreia de um jovem Herbie Hancock de 22 anos. Estrelando: Higgins nas baquetas, Dexter Gordon no Sax tenor, Freddie Hubbard no trompete, e Butch Warren no baixo. Mesmo mais convencional que os trabalhos posteriores de Herbie, onde a pluralidade de gêneros começa a se instalar e a abordagem musical se torna mais experimental e fusion, Takin’ Off é um excelente disco de jazz, com performances altamente técnicas e composições de alto nível. Higgins já se mostrava um baterista de rudimentos ímpares e multifacetados.
Dexter Gordon – Go! (1962)

Higgins também marcou presença em Go!, disco mais cultuado de Dexter Gordon e um dos marcos do jazz nos anos 1960. Gravado em um dos períodos mais inspirados da carreira do saxofonista, o álbum oscila entre a leveza melódica e a urgência rítmica, com Higgins ditando o compasso ao lado do baixista Butch Warren. Sua bateria oferece a base perfeita para os sopros elegantes de Gordon e para a atuação monumental de Sonny Clark ao piano.
Grant Green - Feelin' The Spirit (1963)

Em Feelin’ the Spirit, o lendário guitarrista Grant Green mergulha no blues e flerta com o soul, em faixas carregadas de suingue. É mais uma prova da versatilidade de Billy Higgins, que brilha com sutileza e precisão — intenso nos momentos certos, suave quando necessário, sempre a serviço da música. Herbie Hancock também contribui com um piano de abordagem marcadamente percussiva, reforçando a força rítmica do álbum.
Jackie McLean – Let Freedom Ring (1963)

Um dos trabalhos mais inventivos da carreira do saxofonista nova-iorquino Jackie McLean — e mais um marco do jazz sessentista. Aqui, seu quarteto entrega um som temperado com toques vanguardistas e improvisos suntuosos. Na cozinha, Billy Higgins e Herbie Lewis, completamente entrosados, sustentam a base perfeita para os voos virtuosos do sax de McLean e do piano de Walter Davis Jr. É virtuosidade na medida certa: nada em excesso, tudo em seu devido lugar. Um disco inovador, intenso e equilibrado.
Lee Morgan – The Sidewinder (1964)

“Higgins nunca exagera, mas você sempre sabe que está lá”, disse o célebre trompetista Lee Morgan exaltando a qualidade do baterista. Gostava tanto de Higgins que o escalou para a gravação de 13 LPs posteriores, incluindo o também clássico Cornbread, com participação de Herbie Hancock, Hank Mobley e Jackie McLean.
Gravado em 1963 no estúdio do notório produtor Rudy Van Gelder e lançado no ano posterior pelo selo Blue Note, The Sidewinder é um excelente exemplo da versatilidade do baterista que, com seu suingue de outro planeta, marcava suas digitais nos princípios desse mix do boogaloo com o jazz. A faixa título, que mistura o estilo aos ritmos latinos, ao mesmo tempo em que é sofisticada e acessível, logo se tornou um dos estandartes do gênero, sendo lançada também como single devido a seu sucesso.
O disco salvou uma Blue Note que ia mal das pernas financeiramente. As quatro mil cópias iniciais do LP foram vendidas depois de poucos dias, e em 1965 o álbum alcançou o número 25 da Billboard.
Seja na ousadia das experiências vanguardistas ou no groove acessível do soul jazz, Billy Higgins foi um mestre da adaptação — um baterista que dizia muito mesmo quando tocava pouco. Seu legado é perene e está gravado nas batidas de alguns dos álbuns mais importantes da história do jazz.
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