17 discos para mergulhar no fantástico caos do Free Jazz
- Eduardo Raddi

- 24 de set. de 2025
- 11 min de leitura
Do pioneirismo de Ornette Coleman à fúria espiritual de Coltrane

O free jazz é um estilo sobre o qual raramente se tem uma opinião contida: costuma-se amá-lo ou odiá-lo. Não à toa, dentro do próprio universo do jazz – marcado por admiradores notoriamente puristas, especialmente até a década de 1970 – a rejeição das estruturas tradicionais de melodia e harmonia como forma de experimentação e criação esteve longe de ser consenso. Muitos sequer reconheciam o free jazz como música. Ornette Coleman, seu pioneiro, foi rechaçado por plateias e músicos; Eric Dolphy, outro inovador, precisou passar um tempo na Europa após enfrentar hostilidades nos Estados Unidos; e até John Coltrane, ao se deixar fascinar por Coleman e Albert Ayler e seguir novos caminhos, perdeu parte de seus antigos fãs.
Até hoje, o free jazz mantém a capacidade de surpreender e impactar quem o ouve. Seja de forma positiva ou negativa, provoca sempre uma reação intensa. Para celebrar essa força, selecionei 17 clássicos do gênero.
Mergulhemos no fantástico mundo caótico do free jazz!
Ornette Coleman – The Shape of Jazz to Come (1959)

É impossível falar em free jazz sem citar Ornette Coleman. O gênero recebeu sua alcunha através do lançamento do álbum Free Jazz: A Collective Improvisation (1961). Antes disso, Ornette já havia sido pioneiro e servido como alicerce para o estilo através de seu clássico The Shape of Jazz to Come.
Lançado cerca de dois meses após Kind of Blue – o disco de jazz mais vendido de todos os tempos – The Shape of Jazz to Come mostra Coleman navegando em direções sonoras totalmente diferentes e consideravelmente inusitadas para a época. É o álbum que, como diz o título (traduzido bruscamente para “A Forma do Jazz por vir”), redefiniu o gênero, quebrou paradigmas e libertou o jazz de suas restrições formais.
Eric Dolphy – Out to Lunch (1964)

Gravado apenas quatro meses antes da trágica e precoce morte de Eric Dolphy aos 36 anos de idade, Out to Lunch é outro pivô do estilo. É também o primeiro e único disco do compositor lançado pela Blue Note e gravado nos estúdios de Rudy Van Gelder.
Ao lado apenas de Iron Man – álbum póstumo gravado pelo músico em 1963 e lançado apenas em 1968 – é o trabalho mais subversivo de sua carreira. Essa inventividade já começa pela abordagem do baterista Tony Williams, um prodígio de então 18 anos, que aos 17 já havia participado de Seven Steps to Heaven de Miles Davis. No ano seguinte à participação em Out to Lunch, ele proporia a Miles que tocassem “anti-música”. Tony realmente faz algo diferente de tudo até então, repensando o uso de cada componente da bateria, do prato de condução aos tons, com levadas que variam incessantemente de maneira improvisada.
É evidente que Williams não é o único ao evitar o óbvio aqui. Bobby Hutcherson toca seu vibrafone de maneira única e providencial ao longo de todo o álbum, entregando uma atmosfera misteriosa e futurista. Fechando a sessão rítmica está o não menos ousado Richard Davis (baixo). Dolphy passeia pelo Sax alto, clarinete baixo e flauta, e, no trompete, está o notório Freddie Hubbard.
Albert Ayler – Spiritual Unity (1965)

Albert Ayler, um grande entusiasta de Ornette Coleman, dedicou sua carreira à novas formas de expressão dentro do jazz, quebrando padrões que começavam a ser subvertidos. Assim como Coleman, Ayler, por conta de seu pioneirismo, foi muito contestado por parte de audiências, críticos e até músicos. Ele se tornaria mais tarde uma grande influência para artistas como o próprio John Coltrane – além da admiração retratada do saxofonista, é possível ouvir a influência do trabalho de Ayler em discos como Meditations (1965) e Sun Ship (1971).
O LP foi gravado em um pequeno estúdio de uma então pequena gravadora chamada ESP, onde o trio formado por Gary Peacock no baixo, Sunny Murray na bateria e Ayler no sax tenor, entrega trinta minutos de improviso visceral de intensidade pujante – minutos esses que entrariam para a história do jazz.
Sun Ra – Nothing Is… (1966)

Músico, compositor, poeta e filósofo, Sun Ra foi um dos mais folclóricos e excêntricos compositores do jazz. O tecladista tem uma discografia de mais de 100 álbuns e merece um artigo à parte. Em 1966, ele e sua banda fizeram uma turnê por universidades de Nova Iorque – financiada pelo Conselho de Artes de Nova Iorque. Nothing Is… reúne faixas gravadas durante a apresentação do grupo na Universidade St. Lawrence.
Aqui a banda – que conta com o fantástico Clifford Jarvis nas baquetas – navega por intensos e esotéricos improvisos de puro fluxo de consciência. O pianista, que tanto olhava para o Cosmos e para ele dedicava sua obra, soa como se estivesse em plena navegação entre os corpos celestes. A faixa Exotic Forest, por exemplo, parece tomar parte em um ritual em alguma floresta alienígena. Já Shadow World, soa como a representação da chegada abrupta da tripulação de uma nave a um mundo desconhecido – como o título diz, “Mundo das Sombras”.
Na contracapa do LP original estão duas poesias autorais: Saga of Resistance e The Garden of Eatened.
Don Cherry – Symphony for Improvisers (1966)

Ex-integrante do grupo pioneiro de Ornette Coleman, Cherry deixou a banda em 1965 para enveredar por sua carreira solo. Já no ano seguinte lançou The Avant-Garde ao lado de John Coltrane, além de mais três trabalhos solo. Dentre eles está Symphony for Improvisers, o segundo lançado pela Blue Note.
Trata-se de uma exploração sônica dentro do free jazz, consistindo em dois movimentos de pouco mais de 19 minutos cada. No primeiro, o baterista Ed Blackwell conduz uma frenesi poli rítmica ao lado dos baixistas Henry Grimes e Jenny-Clark, formando a base para os improvisos dos sopros de Gato Barbieri, Pharoah Sanders e Cherry. O vibrafone de Karl Berger também agrega à sinergia de elementos, executando diversas variações.
O segundo movimento, cheio de nuances, começa mais contido e se desenvolve para culminar em viscerais e velozes improvisos regados de diálogos entre os sopros, contando com um virtuoso, embora breve solo de bateria.
Sunny Murray – Sunny Murray (1966)

Pré-datando Machine Gun (1968) de Peter Brotzmann em dois anos, o baterista Sunny Murray – que pouco antes havia gravado o supracitado Spiritual Unity ao lado de Albert Ayler – já explora em seu álbum autointitulado uma abordagem parecida à de Brotzmann, tocando como um touro, de maneira incessante e caótica. Aqui a bateria de Murray parece brigar com os metais, em comoção anárquica.
Durante momentos os sopros esboçam algo de concreto que logo deságua, desmanchando-se no mais puro abstrato. Os pratos do baterista por vezes dialogam com sopros formando uma sonoridade que uiva como o vento fantasmagórico de um fim de tarde sombrio.
Cecil Taylor – Conquistador! (1966)

Um dos pianistas mais transgressores do jazz, Cecil Taylor tem Unit Structures– lançado no mesmo ano também pela Blue Note – como seu disco mais reconhecido. Nele o músico e sua banda parecem romper qualquer tipo de estrutura. Em Conquistador!, por outro lado, é apresentado um trabalho mais versátil, dinâmico e repleto de texturas e nuances. A produção de Rudy Van Gelder também soa melhor aqui do que no LP antecessor. Destaque também para os dois baixistas, Henry Grimes e Alan Silva.
Andrew Hill – Compulsion!!!! (1967)

Tendo como um de seus primeiros trabalhos em estúdio uma gravação ao lado de Roland Kirk em seu LP Domino (1962), era de se esperar que o pianista Andrew Hill desenvolvesse uma veia vanguardista. Em seu álbum mais conhecido, A Point of Departure (1965), já é possível ouvir um forte flerte com o free jazz, mas é em Compulsion!!!!, gravado ainda em 1965 e lançado dois anos depois, que suas experimentações tomam um rumo ainda mais intenso.
Na época, Drums of Passion – cultuado disco do percussionista nigeriano Babatunde Olatunji – era mencionado com frequência nos círculos de músicos de jazz. A influência de seus poderosos poli ritmos está presente nesse trabalho, que conta com dois percussionistas: Nadi Qamar na kalimba, e Renaud Simons nas congas (esse é o único trabalho que se tem registrado de Renaud como músico). Na bateria, o notório Joe Chambers dialoga em caótica harmonia ao lado dos companheiros rítmicos, e na formação também está o não menos importante Freddie Hubbard (trompete e fliscorne).
Archie Shepp – The Magic of Ju-ju (1968)

Antes de tornar-se um dos saxofonistas mais célebres da onda do free jazz sessentista, Shepp já tinha em seu currículo participações ao lado de grandes nomes da vanguarda como Cecil Taylor e Ornette Coleman. Em 1965 tocou com seu ídolo John Coltrane em “Ascension” (1965) – um dos trabalhos mais cultuados da fase experimental do compositor. Foi através de Coltrane que conseguiu um contrato na gravadora Impulse!, selo que lançaria The Magic of Ju-ju, um de seus primeiros álbuns de estúdio.
O LP, visceral e enérgico, abre com percussões tribais frenéticas e incessantes solos de saxofone presentes na primeira faixa, o carro-chefe de 18 minutos e meio que dá nome ao disco. Shepp toca como numa incansável e poderosa dança esotérica na qual é possível sentir a influência de Coltrane. Sorry ‘Bout That, começa convencional e gradativamente mergulha em profundo caos para fechar o álbum.
Charlie Haden – Liberation Music Orchestra (1968)

1968 foi um ano de grande atrito político em contexto mundial. A guerra do Vietnã estava em plenas turbinas e o assassinato de Ernesto Che Guevara – ocorrido um ano antes – ainda ressoava sob as Américas. Especialmente nos Estados Unidos o rock e o folk passaram a representar aquela geração jovem e inflamada, ao mesmo tempo em que o jazz lutava para manter sua visibilidade.
Chalie Haden – o icônico baixista de The Shape of Jazz to Come (e tantos outros) – era também politicamente revolucionário. Não à toa foi preso em Portugal em 1971 por homenagear Che Guevara em um show que ocorrera meses após a morte de Antonio Salazar, ainda em meio à ditadura portuguesa.
Em 1968, lançava seu primeiro álbum como líder, Liberation Music Orchestra, homenageando a música socialista, com temáticas que vão desde a guerra civil espanhola até o movimento de libertação da sul-africano, e, é claro, Cuba – como se ouve no tributo “Song for Che”.
No grupo, o time de craques incluía ícones como o saxofonista argentino Gato Barbieri e o trompetista – e parceiro de longa data de Haden – Don Cherry. Os arranjos são da prolífica pianista Carla Bley.
Pharoah Sanders – Karma (1969)

Depois de uma série de trabalhos apoiando John Coltrane, Sanders lançaria seu primeiro LP solo, Pharaoh, ainda em 1965. O terceiro, Karma, sairia pelo selo Instant em 1969. O saxofonista é um dos mais proeminentes da linhagem do “jazz espiritual”, que remete a nomes como Alice Coltrane e Sun Ra.
Karma é catártico e é possível ouvir sua influência até as novas gerações. Tanto The Creator Has a Master Plan – faixa de 37 minutos que abre o LP – quanto Colours – segunda e última faixa – soam como algo que Kamasi Washington viria a gravar. Aqui Sanders, ao lado de sua banda e do poeta Leon Tomas – letrista e vocalista do álbum – mostra que até o free jazz pode ser acessível.
Anthony Braxton – For Alto (1969)

Não seria absurdo afirmar que For Alto – quarto álbum de estúdio do saxofonista de Chicago, Anthony Braxton – é um dos discos menos convencionais de todos os tempos. Trata-se de pouco mais de uma hora e dez minutos do músico improvisando sozinho com seu sax alto. O álbum é uma expressão artística apaixonada e ousada que desafiou completamente as normas. Pretensiosa para alguns, revolucionária para muitos mais, a obra abriu as portas para que Evan Parker, Peter Brotzmann dentre tantos outros artistas se arriscassem em projetos tocando instrumentos solo.
Cada faixa do LP é dedicada a um amigo ou influência artística – dentre tais, são homenageados personagens como John Cage e Cecil Taylor – em músicas onde Braxton expressa seus sentimentos através do instrumento, que hora chora, hora vocifera, mimetizando as imagens do fluxo de consciência do músico, expostas de maneira arrebatadora e instigante.
Miles Davis – Bitches Brew (1970)

In a Silent Way (1969) – lançamento anterior e primeiro álbum elétrico de Davis – foi o ponto de partida para que o compositor começasse a explorar novos territórios sonoros. É isso que ouvimos em Bitches Brew, um Magnum Opus do jazz, formado por um amalgama de estilos que representa a gênese do fusion como gênero musical e leva o improviso do free jazz em sua alma.
Miles estava descobrindo novos sons e artistas de fora do jazz, o que se refletiu em sua própria música, como John Mclaughlin – guitarrista do álbum – conta em entrevista ao The Guardian: “Ele estava curioso pela nova psicodelia, estava me perguntando sobre Jimi Hendrix. Eu havia tocado com Jimi, e o amava, e Miles nunca o tinha visto, então o levei a um cinema no centro da cidade para ver o filme do Monterey Pop, onde Jimi termina o show deixando sua guitarra em chamas. Miles estava do meu lado e ficou encantado”.
Por conta dessa mistura, do talento monstruoso de Miles e do time de oito músicos convidados por ele – dentre eles, baluartes como Mclaughlin, Chick Corea e Wayne Shorter – foram concebidos mais de uma hora e meia de música cuja desenvoltura fantástica de improvisos resultaria em uma obra antológica. Como escreveu Ralph J. Gleason – um dos fundadores da Rolling Stone – para o encarte do disco, “…a música aqui fala por si só”.
John Coltrane – Sun Ship (1971)

O LP, lançado em 1971, é uma das últimas sessões gravadas pelo quarteto clássico de Coltrane – mesma formação do cultuado A Love Supreme (1965) – que incluía o pianista McCoy Tyner, o baixista Jimmy Garrison, e o lendário baterista Elvin Jones.
Meses após a gravação de A Love Supreme e muito influenciado pelo free jazz de Albert Ayler, Coltrane seguiria até o final de sua vida em busca de sons mais experimentais. Foi nesse contexto de exploração que o quarteto deu luz a Sun Ship, que marcou um ponto essencial em sua fase de transmutação sonora e de quebra de paradigmas em sua própria musicalidade, passando de um período de investigação e aperfeiçoamentos técnicos para outro de pura liberdade de expressão artística intuitiva e espiritual.
Alice Coltrane – Journey in Satchidananda (1971)

Após a morte de John Coltrane, Alice sentiu um impulso natural de aprofundar sua espiritualidade. Nesse caminho, visitou o guru Swami Satchidananda – célebre por ter participado da abertura de Woodstock – e tornou-se sua discípula. Esse mergulho em questões espirituais logo se refletiu em sua obra musical.
Suas composições absorveram cada vez mais a influência música africana e asiática – especialmente egípcia e indiana – ao mesmo tempo em que ainda mantinha na sonoridade uma pitada das raízes bebop – estilo que cresceu ouvindo durante a infância em Detroit. Seus primeiros discos já mostram tais inclinações, porém em Journey in Satchidananda – cujo título homenageia Swami – Alice se aprofunda e faz um tributo à suas próprias mudanças.
Acompanhada por Pharoah Sanders (sax soprano e percussões) e a parceira de longa data Tulsi, na tambura (instrumento indiano semelhante ao sitar), a compositora transcende o free jazz, criando uma linguagem própria e esplendorosa através de um intenso amálgama cultural. O LP ainda conta com os notórios baixistas Cecil McBee e Charlie Haden, além de Rashied Ali na bateria.
Mulatu Astatke – Mulatu of Ethiopia (1972)

Mulatu Astatke queria estudar engenharia, mas após se mudar para o País de Gales e, posteriormente, para Londres, começou a se interessar pela música. Ele se tornou o primeiro estudante africano da notória escola de música de Berklee. Com foco na percussão e no vibrafone, o músico carregou consigo diversas influencias, desde o jazz da Berklee até a salsa e os ritmos latinos absorvidos em suas viagens para Nova Iorque, onde a cena de música latina florescia nos subúrbios.
Através desse amálgama musical, o artista criou uma sonoridade própria, a qual denominou “Ethio-Jazz”, ou em tradução livre, “Jazz Etíope”. Em sua sonoridade, ele misturava as estruturas musicais da música tradicional de seu país, mas com instrumentos ocidentais, como o piano e o contrabaixo. Mulatu of Ethiopia, embora não seja particularmente considerado “free jazz” no senso comum da expressão, engloba características fortemente vanguardistas, através do improviso e do experimentalismo que se apresentam através do projeto.
Dave Holland Quartet – Conference of the Birds (1973)

Dois anos após participar de Bitches Brew, o baixista, acompanhado por Anthony Braxton, Sam Rivers e Barry Altschul, entrega um trabalho ao mesmo tempo coeso e imprevisível. Trata-se de um verdadeiro marco do jazz contemporâneo, no qual a improvisação se equilibra com uma rara sensação de unidade.
A abertura com Four Winds revela a forte influência de Ornette Coleman, enquanto a faixa-título, conduzida por flautas etéreas, evoca o lirismo melancólico de In the Court of the Crimson King (1969), do King Crimson. Essa atmosfera, no entanto, é abruptamente rasgada por Interception, o momento mais ousado do disco: Barry Altschul ataca a bateria em frenesi, colado ao baixo pulsante de Holland, enquanto Braxton e Rivers disparam riffs e solos incendiários.
O entrosamento da “cozinha” é tamanho que baixo e bateria soam como um único organismo, criando simultaneamente a base — e, paradoxalmente, solos próprios — para que os sopros se libertem. O álbum se encerra com See-Saw, onde Holland acelera num walking bass hipnótico, entrelaçado à bateria implacável de Barry. Um desfecho perfeito para um disco que prova que liberdade e coesão não são opostos, mas parceiros.
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