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A Madrinha vive! Beth Carvalho em 4 discos essenciais

  • Foto do escritor: Eduardo Raddi
    Eduardo Raddi
  • 8 de out. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 1 de nov. de 2025

Inveterada botafoguense e mangueirense, Beth Carvalho se tornou um verdadeiro símbolo carioca. Com seu carisma e talento, marcou gerações. Aqui, destaco quatro LPs essenciais de sua rica discografia e relembro sua saudosa figura.


Beth Carvalho Mangueira Botafogo

A trajetória pré “Andanças”


Nascida na Gamboa e criada na zona sul carioca, Beth Carvalho teve desde pequena, a música em sua vida. Não apenas pelas constantes ondas sonoras da radio nacional, que frequentemente permeavam a casa de seus pais – quando ouvia, encantada, as cativantes vozes de Sylvia Telles, Aracy de Almeida e Elizeth Cardoso – mas pelas presenças musicais ilustres que, por serem amigos de seus pais, frequentavam presencialmente a casa, como Sílvio Caldas e a própria Elizeth. Sua mãe era frequentadora inveterada das escolas de samba, e, ainda pequena, Beth se apaixonou pela Mangueira. Desde então, os batuques do pandeiro, o toque do surdo e os acordes do violão passariam a acompanha-la para toda a vida.


Em 1965, aos 19 anos, Beth lançaria seu primeiro compacto, Namorinho / Por Quem Morrer de Amor. Dois anos depois, em 1967, após um breve hiato e já sem grandes pretensões de seguir carreira musical, foi convidada por Antonio Adolfo para ser a vocalista de seu novo projeto, o Conjunto 3D. Essa seria sua primeira participação em um LP completo — e o impulso que reacenderia sua vontade de viver da música.


Com o grupo, gravou apenas um disco, Muito na Onda, que trazia canções de Marcos Valle, Chico Buarque e até uma versão de Watermelon Man, de Herbie Hancock. No ano seguinte, lançaria o single Andanças, canção que a consagraria como uma das grandes vozes da música popular brasileira e abriria caminho para a gravação de seu álbum de estreia. Desenhava-se ali o início de uma carreira linda e frutífera — a trajetória de quem se tornaria um verdadeiro ícone do samba.


A seguir, selecionei quatro álbuns que considero peças essenciais de sua obra e indispensáveis nas estantes dos apaixonados pela música brasileira:


Andança (1969)


Andança

Tendo como algumas de suas principais referências Aracy de Almeida, Maysa, e Elizeth Cardosonuma época de crescente efervescência do violão da bossa-nova, além de andar com uma turma do naipe de Arthur Verocai, Danilo Caymmi e Paulinho TapajósBeth Carvalho passou a fazer parte de um novo movimento que buscava integrar o baião – do até então subestimado Luiz Gonzaga – à bossa-nova carioca. Era o começo da toada moderna, que resultou em seu primeiro LP solo, Andança, cuja faixa título (composta por Danilo Caymmi ao lado de Paulinho Tapajós e Edmundo Souto e gravada com os Golden Boys) ficou em terceiro lugar no Festival Internacional da Canção de 1968. 


Trata-se de um registro do início de sua carreira, muito antes de se tornar um ícone do samba, num álbum cuja sonoridade destoa bastante da do resto de sua discografia e mostra outra faceta da cantora. Um lado interessante de se ouvir. Gostoso, suave e cadenciado, com o toque do Maestro Lindolfo Gaya, que conduz e arranja o LP. Em alguns momentos – como na faixa título e em Sentinela – sentimos um pouco do sabor da música mineira. Em outros, borrifos da cor da bossa-nova que pintou o Rio de Janeiro no início da década de 1960 – como na música de abertura Um Amor em Cada Coração, de Vinicius de Moraes e Baden Powell.


Em Carnaval – canção de Carlos Elis da Portela que conta com participação de Elton Medeiros – um tempero de samba que veste como um pequeno prelúdio para o que se seguiria na carreira da cantora. O álbum ainda conta com a participação do excelente Trio 3 (grupo de Cesar Camargo Mariano) como banda de apoio em seis faixas – destaque para o suingue arrepiante e deliciosamente carioca de Fechei a Porta.


Pandeiro e Viola (1975)


Pandeiro e Viola

Foi com seu segundo lançamento, Canto por um Novo Dia (1973), que Beth, muito influenciada pela música de Clementina de Jesus, passou a beber da mais pura fonte do samba. Ela havia deixado a gigante EMI (então Odeon) e, em busca de liberdade artística, assinou com a pequena Tapecar, que lhe permitiu gravar álbuns dedicados exclusivamente ao samba — algo que não era possível na antiga gravadora.


A cantora lançaria mais dois LPs pela Tapecar: Pra Seu Governo (1974) e Pandeiro e Viola (1975). Neste último, Beth consolida uma sonoridade mais pessoal, resultado de um processo de maturação iniciado nos primeiros anos de sua trajetória. O disco ainda traz uma sessão rítmica de peso, com Wilson das Neves na bateria e Luizão Maia no baixo.


Pandeiro e Viola é talvez o álbum de Beth em que mais se ouvem canções agridoces — onde a intérprete canta as angústias do coração e os amores desfeitos. Destaques para Pior é Saber (Walter Rosa), Amor Fiel (Monarco), De Novo Desamor (Gisa Nogueira) e Amor sem Esperança (Dona Ivone Lara).


Nos Botequins da Vida (1977)


Nos Botequins da Vida

Definitivamente, a alcunha de Madrinha do Samba não é à toa. Beth foi até o pináculo esquecido do gênero: Nelson Cavaquinho e Cartola, dois gênios da Estação Primeira. Procurou ambos. Conheceu Nelson em um bar no Rio, em 1973, e no mesmo ano gravou Folhas Secas, alavancando a carreira do poeta boêmio, que pouco tempo antes tocava em bares a troco de comida.


Um ano depois, em 1974, em busca de repertório, foi ao morro da Mangueira procurar o outro icônico compositor verde e rosa, que na época entregava cafezinhos em uma repartição — e que alguns já davam como falecido. Quando perguntado, ele respondeu que tinha algumas canções compostas. Mostrou As Rosas Não Falam, O Mundo é um Moinho, Aconteceu, entre outras. O resto é história.


Já em 1977, Beth regravou Cartola mais uma vez, com O Mundo é um Moinho, encerrando o LP Nos Botequins da Vida como uma verdadeira cereja no bolo. No álbum, ela canta — de praxe, esbanjando seus majestosos trejeitos e linda voz — canções de compositores distintos e saudosos. Além de Cartola, há Carlos Cachaça (Vingança) e Nelson Cavaquinho (Se Você Me Ouvisse).


Também há críticas sociais e políticas. Logo que sua voz passou a ser ouvida através da música, sua voz política também se fez presente — afinal, Beth viu seu pai ser preso durante a ditadura de 1964. Saco de Feijão, escancarada crítica à exorbitante inflação e ao baixo salário mínimo da época, abre o álbum com força total, seguida por Olho por Olho, uma irreverente contestação social sobre igualdade de gênero. É um LP essencial em sua discografia.


De Pé no Chão (1978) 


De Pé no Chão

A cantora também amadrinharia jovens talentos. Na época, no hoje famoso terreiro do samba do Cacique de Ramos (que não ficava em Ramos, e sim na Rua Uranos 1.326, em Olaria), se reuniam compositores para apresentar mutuamente seus respectivos trabalhos. Era na época um grande reduto de sambistas. Ali, foi amor à primeira vista. Começava a carreira de um craque do partido alto: Zeca Pagodinho, outro amadrinhado por Beth. 


No mesmo terreiro, conheceu uma banda que a deixou boquiaberta. O grupo trazia – numa linguagem inovadora e original – de volta ao samba as influências tribais do batuque e instrumentos como o Tantã, e o Repique de Mão (instrumento criado no próprio Cacique), além do banjo. Tudo isso tocado com um suingue astuto, sincopado e de andamento rápido. Tratava-se do Fundo de Quintalconjunto que Beth convocaria para acompanha-la em seu próximo disco, “De Pé no Chão” – considerado por muitos o melhor trabalho da cantora. 


Aqui, interpretando composições de baluartes como Monarco, Nelson Sargento, Nei Lopes, Candeia e Martinho da Vila, Beth entrega seu samba mais catártico, no álbum que a elevou a um degrau ainda mais alto da prateleira de ícones da música brasileira. Desde “Vou Festejar” – faixa que abre o LP, e é até hoje cantada como um mantra em estádios de futebol ao redor do Brasil – até a genial ode ao samba “Agoniza mas não Morre”, de Nelson Sargento, é um trabalho fantástico.

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