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Loaded: Velvet Underground da Vanguarda ao Pop

  • Foto do escritor: Eduardo Raddi
    Eduardo Raddi
  • 27 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 16 de dez. de 2025

Talvez o álbum mais pop do Velvet Underground, Loaded é maldito por alguns e exaltado por outros. O LP acabou marcando o processo do fim da banda, gravado sem a baterista Maureen Tucker e com a saída de Lou Reed semanas antes do lançamento.


Velvet Underground Loaded

“Carregado” — ou, em inglês, Loaded — de hits. Era isso que a gravadora Atlantic queria para o quarto álbum de estúdio da folclórica banda nova-iorquina Velvet Underground. Pouco antes, o empresário Steve Sesnick — que assumira o grupo após o rompimento com Andy Warhol em 1967 — havia encerrado o contrato com a MGM Records, que passava por uma mudança de direção. Com a troca de gravadora, a banda também acabaria mudando alguns rumos sonoros.

O dono da Atlantic, Ahmet Ertegun, foi direto ao ponto: nada de letras explicitas sobre sexo ou drogas, apenas músicas com potencial radiofônico. Daí vinha o tom irônico do título do disco.


Durante o processo de concepção do álbum, o Velvet Underground ainda não era uma banda particularmente popular ou financeiramente estável. O baixista Doug Yule dormia no sofá do apartamento de Sesnick, enquanto Lou Reed, sem dinheiro o suficiente para o transporte, levava seu grande amplificador Fender num carrinho de mão pelas calçadas de Manhattan.


A pré-produção do disco se baseou principalmente em pequenos shows. Em uma dessas ocasiões, durante uma apresentação na Philadelphia, um inveterado fã chamado Bob Kachnycz estava presente, e alguns detalhes chamaram sua atenção. Na plateia havia apenas 15 pessoas, e, no palco, apenas três integrantes – Lou, Sterling Morrison (guitarrista) e Yule. A baterista Maureen Tucker estava grávida e não pôde participar das performances, tanto ao vivo quanto em estúdio. Apesar de constar seu nome na ficha técnica do LP, se revezaram nas baquetas o próprio Yule, Adrian Barber – guitarrista do grupo de liverpool The Big Three – o músico de estúdio nova iorquino Tommy Castanaro, e o irmão mais novo de Yule, Billy.


Loud Reed e Doug Yule
Loud Reed e Doug Yule.

Doug Yule, que substituiu John Cale no baixo e nas teclas em 1968, e já teve papel importante no disco anterior (The Velvet Underground, 1969) assumindo o vocal principal em “Candy Says”, se torna ainda mais proeminente no Loaded, cantando quatro faixas, além de tocar órgão, baixo, violão, guitarra e piano ao longo do álbum. A partir de sua chegada, a banda passa a aderir à uma sonoridade mais suave em relação aos dois primeiros discos, abandonando o visceral experimentalismo presente em músicas como “European Son” (Velvet Underground and Nico, 1967) ou “I Heard Her Call My Name” (White Light/White Heat, 1968). 


Apesar de Loaded ser considerado o álbum mais comercial da banda, muito por conta das exigências da Atlantic, o flerte com o pop já aparecia no disco anterior, apenas em proporções menores. A ausência de Maureen Tucker na bateria também teve um peso importante nessa mudança estética. Com a entrada de músicos de estúdio um pouco mais técnicos e com a pegada diferente o som do grupo ganhou uma nova dinâmica, o que acabou alterando os paradigmas rítmicos que marcavam os trabalhos anteriores.


Loaded

Loaded, faixa por faixa:


Lançado em setembro de 1970 pela Cottilion Records, subsidiaria da Atlantic, o LP consiste em 10 faixas: 


Who Loves the Sun: Música que poderia ter vindo de 1966 ou 1967, de alguma banda como o Mamas and the Papas ou os Beach Boys. Mesmo assim, a encantadora canção que abre o disco não perde a essência do Velvet. O vocal principal é de Yule.


Sweet Jane: A colorida intro pop de 16 segundos abre caminho para um dos mais icônicos riffs da história do Rock. Esse “Proto-Glam” ainda foi regravado pelo Mott The Hoople no LP “All the Young Dudes”, de 1972.


Rock & Roll: Uma das canções que melhor exaltam as qualidades transformadoras da música, tanto sonoramente, quanto liricamente. Poderosa e catártica, a clássica faixa autobiográfica de Lou fala, em terceira pessoa, sobre a experiência libertadora de Jenny ao ouvir o Rock N Roll na radio pela primeira vez. A faixa foi regravada pelas Runaways, e, mais recentemente, por Alice Cooper.


Cool it Down: Mais um precioso proto-glam, dessa vez contando com uma levada mais lenta e sincopada. 


New Age: A suave voz de Yule canta os sensíveis versos de autoria de Lou, numa faixa dinâmica com crescentes que chegam ao auge no fim da faixa, passando por uma marcação suave da bateria em convergência ao também leve piano, que constantemente mudam de dinâmica até a catarse finalquando Yule seguidamente entona: “It’s the beggining of a new age”. A letra relativiza a definição de sucesso, contando a história de uma atriz esquecida.


Velvet Underground
Doug Yule, Lou Reed, Sterling Morrison e Maureen ‘Moe’ Tucker em 1970. (Foto: Reprodução/Getty)

Head Held High e Lonesome Cowboy Bill: Dois rocks simples e diretos de roupagens semelhantes, no maior estilo Rolling Stones, o segundo, com um leve tempero de música country.


Train Round the Bend: Possivelmente a música menos radiofônica do LP, o choro obscuro da guitarra e o vocal de Lou lembram os tempos mais primais e viscerais da banda.


I Found a Reason: Contemplativa e cândida balada com as harmonizações mais doces do álbum, contando ainda com um poético monologo carregado por melódicos vocais que remetem aos gloriosos dias de doo-wop, numa síntese que só poderia vir da mente de Lou Reed.


Oh! Sweet Nuthin’: Mais uma balada cantada por Yule, dessa vez épica, com uma outro que se estende dos quatro minutos e vinte até os sete e meio que encerram essa formidável e agridoce canção de instrumental inspirador, e letra que, através de diferentes alusões, trova em homenagem àqueles que não tem nada.


Em edição especial do álbum (disponível nas plataformas de streaming), foram incluídas quatro faixas bônus, gravadas nas mesmas sessões. Dentre elas, duas (Ocean e Ride Into The Sun) foram regravadas e entraram no disco de estreia de Lou Reed (1972). Destaque para Ride Into The Sun, que poderia facilmente ter entrado no LP e cuja poesia consegue condensar perfeitamente os sentimentos de se viver numa grande metrópole.


Em 23 de agosto de 1970, no último show da residência da banda no Max’s Kansas City – espécie de inferninho da cena musical em Nova Iorque – Maureen foi assisti-los. Lou lhe disse que estava de partida. Não havia contado ao resto da banda. Quem acabou por dar a notícia foi Sesnick. Reed retornou a Long Island para morar com seus pais, e só apareceu ao final do ano seguinte, quando voltou a ativa para gravar seu primeiro álbum solo, lançado em abril de 1972.


Com a saída do compositor antes mesmo do lançamento do LP, o empresário colocou Yule nos créditos de todas as canções, para tentar maximizar o papel do jovem no trabalho. Sesnick acabou tomando conta da banda, e mesmo com a saída de Lou e Sterling, o novo grupo, capitaneado por Yule, lançaria mais um álbum (Squeeze, 1973) e faria uma turnê de lançamento na Europa ainda sob o nome de Velvet Underground.


Entre os que criticam e os que exaltam, fico com o segundo grupo. Loaded tinha todos os elementos para fracassar: uma banda acostumada ao som de vanguarda, uma gravadora que cobrava hits radiofônicos, um empresário manipulador e conflitos entre Lou e Sterling que se acirravam desde a saída de John Cale. Mas o resultado surpreendeu. Graças ao talento quase inesgotável de composição de Lou Reed e à capacidade do Velvet Underground de preservar sua identidade, o disco funciona, e muito bem.


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