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O mistério de Jim Sullivan

  • Foto do escritor: Eduardo Raddi
    Eduardo Raddi
  • há 7 dias
  • 5 min de leitura

Em 1975, um talentoso compositor cujo primeiro disco abordava temas como a vida na estrada, a morte e o sobrenatural desapareceu no deserto do Novo México para nunca mais ser encontrado. O caso se tornaria uma das histórias mais enigmáticas da música.


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Nascido e criado em San Diego, na Califórnia, Jim Sullivan era o sétimo filho de uma família de classe trabalhadora que havia se mudado para a cidade durante a Segunda Guerra Mundial. Alto e robusto, jogava como quarterback no time de futebol do colegial. O interesse pela música surgiu ao assistir apresentações de bandas locais. Atraído pelo folk e pelo country, escolheu o violão como instrumento.


Ainda no colegial, conheceu Barbara, que mais tarde se tornaria sua esposa. Os dois se mudaram para Los Angeles, onde ela conseguiu um emprego como secretária na Capitol Records. Enquanto isso, Jim passava a maior parte dos dias compondo e ouvindo discos de artistas como Karen Dalton e John Prine, influências importantes na construção de sua sonoridade.


Com algumas composições finalizadas, Sullivan começou a tocar em bares e casas de show da cidade. O chefe de Barbara na Capitol, John Rakin, gostou do som de Jim e tentou apresentar suas músicas aos executivos da gravadora. A iniciativa não teve sucesso. Segundo Rakin, a justificativa foi que sua sonoridade lembrava a de um jovem artista recém-contratado pela companhia chamado James Taylor.


Foto: Reprodução/NPR.
Foto: Reprodução/NPR.

Ao longo do tempo, Jim foi ganhando espaço na cena local, principalmente em Malibu. Tornou-se presença frequente no Raft Club, uma casa noturna bastante prestigiada e frequentada por artistas. Ali, fez amizade com nomes como Harry Dean Stanton e Dennis Hopper. Com Hopper, chegou a participar de forma não creditada do filme Easy Rider, aparecendo como um dos hippies da comuna visitada pelos personagens.


O desaparecimento


Em 1969, Jim lançou seu primeiro disco, U.F.O. Três anos depois, saiu seu segundo e último trabalho, o álbum Jim Sullivan. Após o fracasso comercial de ambos, decidiu deixar Los Angeles em busca de novas oportunidades como músico de estúdio ou compositor. Sua esposa e seus dois filhos ficariam para trás, com a ideia de se juntarem a ele caso desse certo.


No dia 5 de março de 1975, Jim partiu em direção a Nashville dirigindo seu Fusca. Levava apenas uma mala, o violão e uma caixa com cópias de seu segundo LP. No dia seguinte, na altura da cidade de Santa Rosa, no Novo México, foi parado pela polícia após dirigir por cerca de quinze horas seguidas. Submetido a um teste de sobriedade, foi constatado apenas cansaço extremo. Os policiais recomendaram que ele descansasse em um motel próximo.


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Jim seguiu para o La Mesa Motel, mas sequer chegou a ocupar o quarto, que foi encontrado intacto quando as buscas começaram. No dia 8 de março, seu carro foi localizado trancado, com todos os pertences em seu interior, a aproximadamente 42 quilômetros da cidade, em pleno deserto. Jim Sullivan nunca foi encontrado.


Diversas teorias surgiram ao longo dos anos. Algumas apontam para envolvimento da polícia, outras sugerem que ele teria entrado em um rancho pertencente a uma família com ligações com a máfia. Há também quem acredite em abdução por um OVNI, tema recorrente em seu primeiro disco. Essa era a hipótese preferida de Barbara. Em entrevista ao New York Times, o filho do casal, Chris Sullivan, afirmou que seus pais acreditavam em astrologia e reencarnação. Segundo ele, sua mãe estava convencida de que Jim estaria em algum lugar entre as estrelas, esperando por ela.

Independentemente da explicação, Jim Sullivan deixou duas obras marcantes.


U.F.O. e sua mística


Em 1969, Jim teve a oportunidade de gravar seu primeiro álbum pela Monnie Records, gravadora fundada pelo ator Al Dobbs, frequentador assíduo do Raft Club e admirador de seu trabalho. A gravação foi viabilizada por meio de uma arrecadação organizada especialmente para o projeto. Com o passar dos anos, U.F.O. se tornaria o disco mais cultuado de sua carreira.


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No álbum, Jim foi acompanhado pela banda de estúdio The Wrecking Crew. O grupo incluía o baixista e arranjador Jimmy Bond, o pianista Don Randi e o baterista Earl Palmer. Bond tocava o baixo acústico, enquanto o elétrico ficou a cargo de Max Bennett e Lyle Ritz, músicos com passagens por discos de Frank Zappa, Joni Mitchell, Harry Nilsson e outros nomes importantes da época.


A combinação das composições de Sullivan com os arranjos de Bond resultou em uma sonoridade muito característica. Os arranjos funcionam como ornamentos que acompanham a fluência do violão e da voz de Jim, dono de um timbre de barítono frequentemente comparado ao de Fred Neil.

As letras reforçam a aura mística do disco. Jim demonstra o desejo de viver na estrada e de buscar o desconhecido, abordando temas esotéricos de forma sincera e introspectiva. Em faixas como U.F.O., canta versos como “Shaking like a leaf on the desert heat”, que ganhariam um significado inquietante anos depois.


O caráter ambíguo das canções abre espaço para diversas interpretações. Em Jerome, faixa de abertura do álbum, Jim constrói um imaginário surreal ao cantar “I found a magic man”. Em Whistle Stop, narra o encontro com um amor do passado. Já em So Natural, o tema central é a morte. U.F.O. soa como uma viagem que se torna ainda mais intrigante quando se presta atenção às letras.


O segundo lançamento


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Em 1972, aos 32 anos, Jim precisava de um sucesso comercial. Naquele período, Hugh Hefner planejava expandir os negócios da Playboy para o mercado musical. Ele entrou em contato com Lee Burch, da RCA Records, que viabilizou o projeto. Por coincidência, Burch frequentava o Raft Club e se encantou com a voz de Jim, que acabou contratado pelo novo selo.


Para o álbum, o principal nome recrutado foi o baixista e arranjador Jim Hughart, apresentado a Sullivan pelo produtor de U.F.O.. Hughart havia estudado com Carol Kaye e tocado com artistas como Ella Fitzgerald, Joe Pass e Chet Baker. Todos os arranjos do disco são de sua autoria. A banda era extensa e incluía seis músicos apenas nos metais.


O álbum Jim Sullivan é mais lúdico e não carrega a mesma aura do primeiro trabalho. Em compensação, a produção é consideravelmente melhor. A regravação de Sandman, última faixa de U.F.O., exemplifica bem essa diferença. Ao lado de Plain to See, foi uma das poucas músicas que Jim decidiu revisitar. A sonoridade é mais tradicional e revela influência do rock californiano.


Foto: Reprodução/Pop Matters.
Foto: Reprodução/Pop Matters.

Faixas como Biblical Boogie remetem a artistas como Jackson Browne ao unir rock and roll e folk. Tom Cat lembra uma combinação de Dr. John com Jefferson Airplane. Já Sunny Jim se destaca como uma balada refinada em que o compositor canta uma conversa com seu próprio eu infantil. O disco se mantém sofisticado do início ao fim, com destaque também para Don’t Let It Throw You, que abre o álbum.


Apesar de não receber a mesma atenção de U.F.O., principalmente por uma questão de contexto, o segundo disco de Jim Sullivan não deixa a desejar. Perde apenas no aspecto da mística que cerca seu antecessor.

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