A História do "Disco do Tênis"
- Eduardo Raddi

- 4 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 16 de dez. de 2025
Gravado em 1972, o mesmo ano do cultuadíssimo Clube da Esquina, o LP homônimo de Lô Borges, que ficaria conhecido como “Disco do Tênis”, foi feito para cumprir compromissos com a gravadora e se tornou um clássico.

A Odeon — que só aceitou a participação de Lô no Clube da Esquina após a insistência de Milton Nascimento, que chegou a ameaçar deixar a gravadora caso não concordassem — ofereceu-lhe um contrato depois de seu desempenho fenomenal no disco. O jovem de apenas 20 anos, que mal havia começado a compor, não titubeou diante do desafio: em pouco tempo, precisaria criar uma série de canções para compor o repertório de seu primeiro álbum solo.
Para respeitar o prazo curto que tinha com a gravadora, Lô, que já havia esgotado todas suas composições com o Clube da Esquina, precisou entrar em uma rotina com aspectos de maratona. Compunha de manhã, o irmão Marcio Borges escrevia a letra à tarde, e, de noite, a música era apresentada para a banda, que criava os arranjos a partir do improviso. Na mesma noite a faixa era gravada e o processo se repetia no dia seguinte.
Tendo em vista o prisma de pressão em que o disco foi gravado, a criatividade que se aflora nele é impressionante. Como o próprio Lô diz, o álbum foi concebido a partir de uma “oficina instrumental de criação”. A banda, formada por nomes como Toninho Horta, Beto Guedes, Novelli, Danilo Caymmi, Nelson Angelo, Robertinho Silva e Flávio Venturini, varia de formação em quase todas as faixas. Um exemplo disso é Beto Guedes, que ao longo do LP, toca bateria, percussão, bandolim, baixo, piano elétrico, orgão, violão, viola e guitarra, além do vocal principal em “Como o Machado”, e vocais de apoio em outras faixas.
A capa com o Adidas surrado, que se tornaria icônica, foi uma clara mensagem à gravadora. Lô estava de saída e, ansioso para se livrar da rotina estressante da indústria fonográfica, nem chegou a fazer uma turnê do disco. Partiu para Porto Alegre e, depois, para a Bahia, em busca de descanso. A divulgação acabou se resumindo ao próprio compositor entregando cópias de sua cota de LPs a hippies cabeludos (e sortudos) em rodas de conversa (cof).

O disco ficou esquecido até mesmo pelo próprio Lô, que, mesmo após voltar a gravar e se apresentar, nunca incluía suas músicas no repertório. Apenas 45 anos depois de sua gravação, as faixas do Disco do Tênis voltaram a ser tocadas em seus shows. Em 2017, ele apresentou o álbum na íntegra em diversas cidades do país. A turnê foi registrada no DVD Tênis + Clube Ao Vivo, gravado no Circo Voador em 2018.
As faixas são curtas, mas incrivelmente densas, cheias de camadas e detalhes capazes de instigar o ouvinte a descobrir novas nuances a cada audição — algo notável para um LP concebido sob tanta pressão. Tudo soa absolutamente orgânico, vivo, como se as canções tivessem nascido em um só fôlego coletivo. Ao mesmo tempo, o disco emana um certo ar místico, difícil de definir, que paira entre o sonho e a intuição.
Há uma coerência interna admirável: mesmo com faixas que variam bastante entre si, o álbum constrói uma atmosfera única. Elementos do Clube da Esquina se misturam à música nordestina, ao folk e a um toque essencial de psicodelia, temperados pelo experimentalismo que surgiu naturalmente do improviso e das trocas de formação entre os músicos no estúdio. O resultado é um retrato puro da liberdade criativa que marcou a gravação e que ainda soa fresco, espontâneo e inspirador atualmente.

Fascinado, à época, pelo álbum Axis: Bold as Love de Jimi Hendrix, Lô compôs um sofisticado rock’n’roll em que divide as guitarras com Beto Guedes. É a primeira faixa do disco, “Você Fica Bem Melhor Assim”. A letra, escrita por Tavinho Moura — curiosamente um compositor conhecido por seu trabalho com a viola mineira —, traz um lirismo psicodélico que dialoga diretamente com o espírito de Bold as Love, acrescentando ainda mais força à canção.
O disco segue com faixas que evocam a sonoridade do Clube da Esquina, como “Canção Postal” e “O Caçador”, que sintetizam com maestria tudo o que a música mineira tem de mais poético, inventivo e luminoso.
Em “Faça Seu Jogo”, os arranjos e a regência de Dori Caymmi, somados à bela letra de Márcio Borges e à voz delicada e única do jovem Lô, resultam em uma verdadeira obra-prima. É possível sentir as influências nordestinas no baião psicodélico de “Não Foi Nada” e o toque jazzístico em “Não Se Apague Esta Noite”. Já em “Como o Machado”, Lô traduz a sensação de viver sob uma ditadura militar em uma canção ao mesmo tempo linda e melancólica.
Essa melancolia também permeia a enigmática “Eu Sou Como Você É”, faixa que reforça o tom introspectivo do disco. O álbum se encerra com a bucólica “Toda Essa Água”, onde a viola de Beto Guedes dialoga de forma sublime com o órgão de Tenório Júnior, criando uma atmosfera de serenidade e despedida que resume com perfeição o espírito do LP.
O Disco do Tênis transpira um ar hermético e enigmático, que não se traduz completamente por palavras, mas por emoções profundas. Representa um marco na música brasileira.
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