Gram Parsons, O Anjo Amaldiçoado
- Eduardo Raddi

- 16 de dez. de 2025
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Atualizado: 16 de dez. de 2025

Uma infância entre o dinheiro e a desgraça
No dia cinco de novembro de 1946, em Winter Haven, na Flórida, nascia Ingril Cecil Connor III. Sua infância foi marcada por uma colisão constante entre a riqueza financeira e a fragilidade mental e espiritual de seus pais. A mãe, Avis Snively, era herdeira de uma grande empresa de exploração de frutas cítricas voltada à fabricação de bebidas. O pai, Ingran “Coon Dog” Connor, era veterano de guerra.
Em 23 de dezembro de 1958, quando Ingril tinha onze anos, seu pai cometeu suicídio. Um ano depois, Avis se casaria com Robert Parsons, que adotaria o menino, rebatizado então como Gram Parsons. Apenas seis anos mais tarde, sua mãe faleceria vítima de cirrose hepática após anos de alcoolismo severo.
Início de carreira e The Shilos
Pode-se dizer que o ponto de ebulição que levou Gram a seguir o caminho da música foi ter assistido a uma apresentação de Elvis Presley no Waycross City Auditorium em 1956. No mesmo ano, o jovem começou a aprender piano e, aos onze, escreveu sua primeira canção, “Gram’s Boogie”.
No início da década de 1960, Parsons estreou na cena musical de Polk County, na Flórida, participando de sua primeira banda, o The Pacers. O grupo tinha um repertório baseado no rock n roll, com releituras de Ray Charles, Chuck Berry, The Ventures e, a pedido de Gram, Elvis Presley.
Após outras breves passagens por bandas locais, em 1963 Parsons formou o The Shilos, seu primeiro trabalho autoral.
Com uma sonoridade mais voltada ao folk, o grupo se apresentou pela Flórida e gravou uma série de demos ao longo de dois anos de atividade. As canções só seriam lançadas após a morte de Parsons, em 1979, na coletânea The Early Years. Nesse período, o músico ainda não havia descoberto plenamente suas futuras referências no country, que mais tarde moldariam a originalidade de seus trabalhos. Foi uma fase de transição musical para o compositor.
The International Submarine Band – Safe at Home (1968)

Assim como a apresentação de Elvis Presley que Parsons havia assistido ainda criança, o impacto de presenciar o show dos Beatles no Shea Stadium em 1965 foi decisivo para sua formação artística. A sonoridade da banda contrastava fortemente com o folk tradicional que movimentava a cena de sua cidade natal e atingiu Gram em um momento em que ele buscava uma identidade própria. Ela surgiria pouco depois, alimentada pelo estilo que se tornaria sua grande paixão: o country.
Naquele período, a música country carregava uma identidade social associada a gerações mais velhas e havia sido deixada de lado pelo público jovem. O folk, muitas vezes carregado de crítica ao establishment conservador, dominava a juventude. Embora Parsons não empregasse o folk com teor político, ele estava inserido em um nicho muito distante do universo country. Essa relação começaria a se inverter ainda em 1965, quando, estudando em Harvard, foi exposto a artistas como Merle Haggard e os Louvin’ Brothers. Gram ficou obcecado pelo estilo e, no ano seguinte, fundou o The International Submarine Band, com o qual lançaria seu primeiro LP.
Parsons abandonou Harvard em fevereiro de 1966 e logo partiu com os companheiros de banda para Nova Iorque. Alugaram uma casa no Bronx e adotaram uma rotina intensa de ensaios e experimentação sonora. As primeiras demos do International Submarine Band incluíam desde canções de Buck Owens até Little Richard e Wilson Pickett.
“Estávamos muito conectados à música country. Ao mesmo tempo, em nosso repertório tocávamos R&B. Misturávamos o R&B, que o público já conhecia, à música country, que quase ninguém nunca havia ouvido na vida.”John Nuese, guitarrista da banda, em entrevista para o livro Twenty Thousand Roads (David Meyer, 2007)
Após o lançamento discreto de dois singles pela Columbia Records em Nova Iorque, em 1967 o grupo partiu para Los Angeles em busca de novas oportunidades, inserindo-se em uma cena musical em plena ebulição. Lá, a banda quase chegou ao fim antes mesmo de gravar seu primeiro disco. Após desentendimentos internos, o baixista Ian Dunlop e o baterista Mickey Gauvin deixaram o grupo, restando apenas Parsons e John Nuese.
Ainda em 1967, a sorte dos dois membros remanescentes mudou. O International Submarine Band foi apresentado ao compositor e produtor Lee Hazelwood, dono da gravadora LHI, que os contratou para a gravação de um LP. Foram recrutados o baterista Jon Corneal, o baixista Chris Ethridge e outros músicos de estúdio. Assim nasceu Safe at Home, o primeiro e único disco da banda.

Lançado em 1968, o álbum reúne três composições de Parsons e sete interpretações, misturando de forma elegante o honky tonk dos anos 1950 ao rock. Os arranjos, embora não creditados, são em sua maioria concebidos por Gram. O disco traz duas releituras de Johnny Cash, “Folsom Prison Blues” e “I Still Miss Someone”. Na primeira, há um tempero californiano absorvido pela estadia do grupo em Laurel Canyon, com toques lisérgicos que dialogam com um vocal tipicamente country. Na segunda, a abordagem se distancia bastante da original e antecipa o trabalho que Gram realizaria mais tarde com os Byrds. O álbum inclui ainda uma releitura marcante de “I Must Be Somebody Else You’ve Known”, de Merle Haggard. Entre as autorais, destaca-se “Luxury Liner”, um country rock ornamentado pela steel guitar de Jay Dee Maness.
Safe at Home já carrega o sabor do que Parsons mais tarde chamaria de “Cosmic American Music”, uma fusão da música tradicional norte-americana com elementos do folk e do rock contemporâneos que floresciam na cena californiana. Nos meses seguintes à gravação, o grupo se dissolveu. Gram se juntou aos Byrds e informou Hazelwood de que não gravaria mais pela LHI, o que fez com que o álbum não recebesse divulgação após o lançamento. Apesar da boa recepção da crítica local, o disco não alcançou sucesso comercial. O crítico Pete Johnson, do Los Angeles Times, afirmou que as canções eram “muito autênticas” e exibiam uma “vitalidade não muito comum em músicos country”, elogio que o tempo trataria de confirmar.
The Byrds – Sweetheart of the Rodeo (1968)

Em março de 1968, poucas semanas após a entrada de Gram Parsons, os Byrds voaram para Nashville com a intenção de aprofundar sua incursão pela música country. Até então, a banda era identificada principalmente com o folk. Chris Hillman, baixista do grupo e entusiasta do gênero, já havia tentado introduzir o country aos companheiros, mas encontrava resistência de David Crosby. Com a saída de Crosby e a chegada de Parsons, o terreno ficou finalmente propício para esse tipo de experimentação. Sweetheart of the Rodeo representou uma ruptura drástica em relação ao folk psicodélico de Notorious Byrd Brothers, lançado no mesmo ano.
As sessões começaram ainda em março no estúdio da Columbia Records. Durante a semana em Nashville, a banda contou com músicos locais como Lloyd Green na guitarra steel, John Hartford no violino e banjo e Roy Husky no baixo. Nas teclas estava Earl Ball, pianista que havia trabalhado com o International Submarine Band. Além deles, participaram Hillman, alternando entre baixo e bandolim, e Roger McGuinn na guitarra e no banjo. Oito faixas foram gravadas em Nashville e seis em Los Angeles. Onze entraram no álbum final, enquanto as três restantes só seriam lançadas em CD nos anos 1990.
A ideia original de McGuinn era fazer um LP duplo que percorresse cronologicamente os gêneros musicais norte-americanos desde a virada do século. Parsons e Hillman o convenceram a focar exclusivamente no country, decisão que definiu o rumo do disco. Ainda assim, o álbum preserva elementos do folk e do rock. À época, essa mistura gerou rejeição. O trabalho era country demais para os fãs de folk rock e folk rock demais para os fãs de country. A primeira execução ao vivo de uma faixa do disco, em 16 de março de 1968 no Grand Ole Opry, foi recebida com vaias. O álbum tornou-se o maior fracasso comercial da carreira dos Byrds até então, embora tenha sido bem recebido pela crítica. Com o tempo, consolidou-se como clássico e ajudou a transformar Gram em mito.

Após o fim das sessões em Nashville, o grupo realizou uma breve turnê por faculdades da Costa Leste e concluiu o álbum em Los Angeles ao longo de dois meses. O disco foi finalizado em maio de 1968. Como era característico dos Byrds, não faltam interpretações de Bob Dylan. “You Ain’t Going Nowhere” abre o álbum com um refrão catártico sustentado por harmonizações vocais delicadas. No encerramento do lado B, “Nothing Was Delivered” traduz com inteligência o folk dylaniano para um shuffle honky tonk ornamentado por steel guitar.
“I Am a Pilgrim”, cantada por Chris Hillman, é uma canção tradicional popularizada por Merle Travis no fim dos anos 1940. A versão dos Byrds segue uma linha bastante fiel à tradição, com violão, violino, banjo e baixo.
Nas duas composições de Gram Parsons, sua ideologia de “Cosmic American Music” se manifesta com clareza. “Hickory Wind” é uma das faixas mais tradicionais do material gravado em Nashville e expressa a saudade de um passado bucólico em contraste com a solidão da vida urbana, a partir de um olhar autobiográfico. Já “One Hundred Years From Now”, gravada em Los Angeles, soa mais próxima do Byrds de Notorious Byrd Brothers. Sua lírica abstrata e existencialista dialoga mais com a contracultura californiana do que com o country sulista.
O álbum ainda traz uma versão de “You Don’t Miss Your Water”, de William Bell, uma adaptação ousada de um tema de soul e R&B para o universo country.
Sweetheart of the Rodeo reúne um repertório diverso dentro do gênero e amplia sua definição ao mediar um contato estilístico entre Nashville e Califórnia. Ao mesmo tempo, estabelece um diálogo entre passado e presente, explorando de forma inovadora uma mistura pouco comum para a época.
The Flying Burrito Brothers – Gilded Palace of Sin (1969)

Semanas após o lançamento de Sweetheart of the Rodeo, Gram Parsons deixou os Byrds. Chris Hillman permaneceu por pouco tempo e logo também saiu da banda. Pouco depois, entrou em contato com Gram para dar início a um novo projeto, o The Flying Burrito Brothers.
Reencontrados, Hillman e Parsons alugaram uma casa na De Soto Avenue, no norte de Hollywood, e passaram a compor intensamente. O período foi extremamente prolífico e, em poucas semanas, a dupla já havia escrito material suficiente para um LP. O passo seguinte era conseguir um contrato. Por meio de contatos, do carisma de Parsons e do tradicional boca a boca, a banda assinou com a A&M Records, uma gravadora independente que ainda não tinha experiência com artistas de country rock. Essa inexperiência acabou se convertendo em vantagem, garantindo ampla liberdade criativa durante todo o processo de concepção do álbum.
Com o apoio da gravadora, Gram e Hillman começaram a montar a formação da banda. O primeiro recrutado foi o baixista Chris Ethridge, que havia tocado no International Submarine Band. Naquele momento, Ethridge atuava como músico de estúdio, com trabalhos ao lado de Judy Collins e Arlo Guthrie. Embora fosse natural do Mississippi, era mais fluente em R&B do que em country, o que adicionou um caráter particular ao disco e dialogou com a ideia de “Cosmic American Music” de Parsons. Outra peça fundamental foi Sneaky Pete Kleinow na guitarra steel, que naquele mesmo ano participaria do primeiro álbum de Joe Cocker.

Mesmo sem um baterista fixo, já que quatro músicos diferentes assumem o instrumento ao longo do disco, o grupo iniciou os ensaios e começou as gravações em novembro de 1968. As doze faixas foram registradas integralmente ao vivo. O álbum foi concluído e lançado no início de 1969, alcançando apenas a posição 164 da Billboard. Foi mais um fracasso comercial e, ao mesmo tempo, um sucesso de crítica.
Gilded Palace of Sin consolida a estética que Gram Parsons vinha moldando ao longo da carreira para sua chamada música americana cósmica. Isso se reflete tanto nas letras, distantes do tradicionalismo do country e alinhadas à juventude e à contracultura, quanto no aspecto visual. A capa foi fotografada por Barry Feinstein e traz a icônica jaqueta de Parsons, que mistura de forma irônica símbolos cristãos a referências a drogas e sexo.
A faixa de abertura, “Christine’s Tune”, foi escrita para a jovem de cabelos escuros que aparece na capa saindo de uma espécie de capela abandonada ao lado de uma mulher loira, Pamela Des Barres. Ambas integravam as GTO’s, grupo idealizado e produzido por Frank Zappa que transitava entre música e performance visual. Christine também aparece na capa de Hot Rats (1969), clássico de Zappa. Musicalmente, “Christine’s Tune” traduz o pluralismo do country rock ao colocar o slide de Sneaky Pete em diálogo com a guitarra lisérgica de Hillman, que se alternam como em uma conversa. Enquanto isso, o dueto Parsons e Hillman entoa “She’s a Devil in Disguise”, como a própria Christine se autodenominava. Ela morreria de overdose de heroína aos 22 anos.

Em contraste com a visão idílica do ambiente rural presente em “Hickory Wind”, “Sin City” apresenta um retrato apocalíptico de uma cidade corroída pela ganância e pelo caos. A canção captura o desencanto com a utopia de paz e amor do movimento hippie. Ironicamente, a banda se apresentaria no festival de Altamont, evento que simbolizou esse mesmo sentimento de desilusão. Instrumentalmente, Sneaky Pete costura a faixa com ornamentos ricos em textura, algo recorrente em todo o álbum.
Em “Hot Burrito No. 1”, a única música da banda que chegou perto de se tornar um hit, Parsons se destaca por sua interpretação dilacerante. Mesmo sem grande alcance ou técnica vocal, sua voz por vezes vacilante transmite um sofrimento calejado e profundamente genuíno. Essa fragilidade se encaixa perfeitamente tanto na lírica quanto no instrumental, tornando a canção um dos momentos mais marcantes do disco.
Em Gilded Palace of Sin, mais do que em qualquer outro trabalho, Gram Parsons expande a música country para além de seus limites genéricos. Ao incorporar sonoridades pouco convencionais, o álbum estabelece uma nova conversa entre o popular e o vanguardista e se afirma como um marco definitivo do country rock.
The Flying Burrito Brothers – Burrito Deluxe (1970)

A banda ainda lançaria mais um álbum com a participação de Gram Parsons. Em Burrito Deluxe, o grupo se aproxima mais do rock n roll, com levadas rápidas e uma influência evidente de Elvis Presley. Os elementos do country seguem presentes, mas de forma mais discreta. O resultado é um disco enérgico, como se percebe na interpretação de “If You Gotta Go”, de Bob Dylan, e ao mesmo tempo marcado por uma atmosfera leve, descontraída e quase despretensiosa ao longo de seus curtos 32 minutos.
Um detalhe fundamental é que o álbum traz a primeira gravação de “Wild Horses”, composição que Keith Richards entregou a Parsons e que se tornaria um clássico ao integrar o eterno Sticky Fingers no ano seguinte. Ainda assim, Burrito Deluxe está distante do brilho e do impacto de seu antecessor. Vale destacar também a participação de Leon Russell ao piano em “Man in the Fog” e em “Wild Horses”, que adiciona ainda mais peso e sensibilidade a esses momentos do disco.
Gram Parsons – GP (1973)

Em 1970, Chris Hillman demitiu Parsons do grupo em razão de seu abuso constante de drogas e da falta de comprometimento. Com sua lábia afiada, Gram ainda conseguiu um contrato com a A&M para o que seria seu primeiro álbum solo. As gravações começaram algumas semanas depois e contaram com a participação ilustre de Ry Cooder na guitarra slide. No entanto, mesmo com dez canções já finalizadas, os problemas pessoais de Parsons levaram ao rompimento do contrato. As gravações foram descartadas, as fitas se perderam e as faixas nunca chegaram a ser lançadas.
Nesse período, Gram estreitou sua amizade com Keith Richards. Viajou para a Inglaterra e acompanhou os Rolling Stones até o sul da França, na hoje lendária mansão Nellcôte, onde parte de Exile on Main Street foi gravada. Esse intervalo quase sabático durou até a semana fatídica em que instrumentos da banda foram roubados e Richards passou a sofrer pressão da polícia francesa por porte de drogas.
De volta a Los Angeles e decidido a iniciar sua carreira solo de forma definitiva, Parsons procurou a cantora Emmylou Harris por sugestão de Chris Hillman. Ainda pouco conhecida e vinda de Washington D.C., Harris se tornaria peça central em seus dois discos solo. Gram também retomou contato com Eddie Tickner, antigo empresário dos Byrds, que conseguiu para ele um contrato com a Reprise Records para a gravação de dois álbuns.
Para GP, Parsons recrutou a TCB Band, então grupo de apoio de Elvis Presley, formada pelo baterista Ronnie Tutt, o pianista Glen D. Hardin e o guitarrista James Burton. A eles se somaram Al Perkins e Buddy Emmons na guitarra havaiana. O álbum foi produzido por Parsons em parceria com Ric Grech, ex-baixista do Blind Faith e do Family.
Lançado em janeiro de 1973, o disco reúne sete composições de Parsons e quatro interpretações. Mais uma vez, foi um fracasso comercial e um sucesso de crítica. Bud Scoppa, da Rolling Stone, sintetizou com precisão a essência de Gram Parsons ao afirmar que suas canções giram em torno do conflito entre as tradições e o código moral do sul dos Estados Unidos e um mundo moderno complexo e ambíguo. Para o crítico, Parsons reconhecia a corrupção de ambos os universos e sobrevivia tentando equilibrá-los, ainda que não acreditasse plenamente em nenhum deles.
Diferentemente de Burrito Deluxe, neste trabalho Gram se aproxima mais do que nunca da música country.

Os duetos com Emmylou Harris reforçam o diálogo com o tradicionalismo da música estadunidense e revelam uma química sonora imediata entre os dois. As canções oscilam entre as contradições da vida urbana e a idealização da quietude do campo, com todo o peso moral do sul. Essa dualidade aparece com clareza em “Streets of Baltimore”, de Tompall Glaser e Harlan Howard, que idealiza a vida sulista, e em “She”, de Ethridge e Parsons, que reconhece suas complexidades e frustrações. A parceria entre Gram e Harris atravessa todo o álbum e antecipa o aprofundamento dessa raiz country que se consolidaria em Grievous Angel. Entre os destaques estão as autorais “The New Soft Shoe”, marcada por harmonizações vocais arrepiantes, e “A Song for You”, uma canção de amor sincera e sofrida conduzida em dueto.
Gram Parsons – Grievous Angel (1974)

Após a turnê que se seguiu ao lançamento de GP, tiveram início as sessões de gravação do álbum seguinte. A banda voltou a contar com membros do TCB, além de novas participações, como Bernie Leadon na guitarra e violão, Steve Snyder no vibrafone e Linda Ronstadt nos vocais de apoio da última faixa.
Gram estava renovado, otimista e demonstrava um senso de profissionalismo raro em trabalhos anteriores. Segundo o baixista Emory Gordy, em depoimento registrado no livro A Thousand Roads, havia uma energia muito positiva durante todo o processo de gravação. Gram estava completamente envolvido e Emmylou Harris orbitava ao seu redor. As sessões foram ótimas e felizes.
Como refletem as palavras de Gordy, Emmylou Harris assumiu um papel ainda mais ativo em Grievous Angel. Embora sua contribuição já tivesse sido marcante em GP, aqui sua voz aparece mixada em volume mais alto, dialogando em igualdade com a de Parsons. Sua presença é especialmente forte em “Return of the Grievous Angel”, “In My Time of Darkness” e “Love Hurts”, adicionando uma dimensão narrativa fundamental às canções. O álbum também reflete o amadurecimento da parceria construída ao longo da turnê de GP.

O disco reúne nove músicas, gravadas integralmente ao vivo, e marca uma regressão consciente de Gram ao country mais tradicional. A faixa de abertura, “Return of the Grievous Angel”, é creditada a Parsons em parceria com o poeta Thomas Stanley Brown, que ele conheceu durante uma apresentação em Boston na turnê do verão anterior. Em contraste com canções de amor mais desesperadas como “Hot Burrito#2”, a música celebra a esperança, a camaradagem da vida na estrada e a promessa reconfortante do retorno ao lar, sintetizando bem essa nova direção musical. Em contraponto, o álbum traz “Love Hurts”, composição de Boudleaux Bryant que se tornaria icônica na voz de Parsons, evocando um sentimento profundo de melancolia e desolamento.
Esse retorno às raízes espelha a própria trajetória de Parsons dentro do country rock desde a segunda metade dos anos 1960. A sensação de busca e otimismo sempre permeou sua obra, mas após esse percurso surge um anseio pelo lar, expresso de forma nostálgica em seus dois álbuns solo e acompanhado por um claro amadurecimento artístico. É inevitável pensar no que ainda poderia ter sido desenvolvido e aprofundado se sua carreira não tivesse sido interrompida de forma tão abrupta.
No dia 19 de setembro de 1973, Gram Parsons foi comemorar com amigos o término das gravações de Grievous Angel no Joshua Tree Inn, um hotel de beira de estrada. Ele faleceu naquela mesma noite, aos 26 anos, em decorrência de uma overdose.
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