Oito LPs para se apaixonar por Fela Kuti
- Eduardo Raddi

- 11 de dez. de 2025
- 11 min de leitura
Atualizado: 16 de dez. de 2025
Um dos maiores ícones da música e criador do Afrobeat ao lado de Tony Allen, Fela Kuti também era uma figura fascinante, e cada um de seus álbuns guarda um pedaço importante de sua história.

Trajetória
Fela Ransome-Kuti, que mais tarde adotaria o nome Fela Anikulapo-Kuti, nasceu em 1938 em Abeokuta, cidade ao norte do Estado de Lagos, na Nigéria, em um período marcado pelo forte domínio colonial britânico. Vindo de uma família de classe média alta, porém abertamente anticolonialista, Fela sempre atribuiu suas ideias políticas à influência da mãe, que se tornaria amiga de Kwame Nkrumah, primeiro presidente de Gana após a independência em 1960 e uma das figuras centrais do Pan-Africanismo. Nos anos seguintes, a Nigéria entraria em uma espiral de golpes de Estado e sucessivos governos corrompidos pelos interesses das potências do chamado “primeiro mundo”.
O primeiro instrumento com que Fela teve contato foi o piano. Aos 8 anos de idade, começou a ter aulas por influência do pai. Já aos 16, em Lagos, um amigo o apresentou à cena musical local. Empolgado pela banda do trompetista Victor Olaya e pelos discos de jazz que ouvira pela cidade, Fela decidiu aprender o instrumento.
Em 1958, partiu para Londres para estudar medicina, mas a paixão pela música já estava enraizada. Ele abandonou o curso e tentou ingressar no Trinity College of Music. Apesar de ser reprovado no teste, o diretor se compadeceu do jovem que tinha vindo de outro continente e lhe deu uma chance. Como diz Michael Veal, autor de Fela: Life and Times of an African, em entrevista à BBC: “Os músicos de jazz tinham um pé dentro e outro fora da escola de música. Fela nunca foi conhecido por ser um ótimo aluno. O coração e os ouvidos estavam no que estava sendo tocado na rua, que é onde a música acontece”.
Algum tempo depois, ainda na Inglaterra, Fela formaria o grupo Koola Lobitos, que posteriormente ganharia espaço na cena musical de Lagos após seu retorno à Nigéria. Nessa mesma época, teve seu primeiro contato com o lendário baterista Ginger Baker — com quem faria parcerias importantes no futuro — no Flamingo Club, no Soho londrino. Em 1965, Fela recrutou o melhor baterista de Lagos, Tony Allen, que viria a ser o cocriador do Afrobeat e uma peça fundamental em toda a carreira do compositor.
Durante sua ida aos Estados Unidos, em 1970, o artista absorveu influências do funk de James Brown e Bootsy Collins, que, amalgamadas ao jazz e aos ritmos africanos, dariam origem ao Afrobeat. Além disso, conheceu Sandra Iszadore, integrante dos Panteras Negras, que o introduziu ao movimento negro, ao pensamento de Malcolm X e à música de Nina Simone. A partir daí, o “Black President” começou a desenvolver a consciência política que se tornaria essencial para moldar sua obra.
Inspirado pelos ideais socialistas dos Panteras Negras e pelo estilo de vida hippie californiano, ao retornar à Nigéria o compositor fundou a comuna Kalakuta, um conjunto de casas cercadas por arame farpado onde viviam ele, sua família, os músicos da banda e diversos jovens para os quais Fela oferecia trabalho remunerado para colaborar artisticamente. O complexo, que Fela declarou independente do Estado, contava até com um posto de saúde gratuito e um estúdio.
Amante profundo de seu continente, Fela estava determinado a fortalecer a identidade e a independência cultural africana, ao mesmo tempo em que expressava — de forma intensa e muitas vezes incendiária — toda sua revolta diante dos problemas e injustiças estruturais da Nigéria. Musicalmente, sua importância é colossal. A seguir, oito discos de sua enorme discografia para quem já conhece se aprofundar e, para quem não conhece, começar a descobrir.
Fela Kuti and the Africa 70’ with Ginger Baker – Live! (1971)

Certa noite, no Flamingo Club, em Londres, Ginger Baker conheceu o prolífico baterista de jazz Phil Seaman, que o convidou para seu apartamento. Lá, Seaman lhe apresentou a música africana e, para Baker, foi amor à primeira audição. Em 1971, o ex-baterista do Cream e do Blind Faith comprou um Range Rover e atravessou o deserto do Saara rumo a Lagos, na Nigéria, em busca de novas sonoridades. Na cidade, Baker montou o primeiro estúdio de 16 canais do país, o Arc Studio, e tornou-se amigo próximo de Fela Kuti, músico que o havia encantado desde a primeira vez em que o viu tocar com sua banda no estúdio Abbey Road.
A amizade e a parceria entre os dois, figuras temperamentais e carismáticas, resultaram em uma combinação artística impressionante. O disco que produziram juntos dispensa comentários. Como ponto alto, Tony Allen e Ginger Baker dão uma aula de ritmo, com direito a um solo de bateria de 16 minutos que encerra o LP.
A história dessa viagem é narrada no documentário Ginger Baker in Africa (1973), dirigido por Tony Palmer.
Roforofo Fight (1972)

Em 1972, o Afro Spot, casa de shows de Fela, vivia um período difícil. O compositor decidiu então realocá-lo para o Empire Hotel, no bairro de Surulere, e renomeá-lo como The African Shrine. O novo espaço era muito maior do que o anterior e rapidamente passou a lotar com frequência cada vez maior, funcionando não apenas como palco para apresentações, mas também como centro de articulação política e de engajamento cultural. Nesse mesmo ano, Fela lançou três obras importantes de sua discografia: Roforofo Fight, Shakara e Open & Close. Também gravou uma participação no disco solo de Ginger Baker, Stratavarious.
Roforofo Fight é uma das grandes pérolas de Fela no início da década de 1970 e um de seus poucos álbuns com mais de duas faixas. É também um dos discos em que a influência do jazz aparece de forma mais evidente e marca um dos primeiros momentos em que o compositor mistura o iorubá ao inglês em suas letras.
Aqui encontramos quatro músicas com temáticas líricas semelhantes. A faixa-título, sustentada por uma levada veloz que abre espaço para solos jazzísticos de saxofone e teclado, aborda a intolerância humana e a incapacidade de diálogo que antecede tantos conflitos e violências.
A groovada e cadenciada Go Slow reflete sobre o trânsito caótico de Lagos, usando-o como metáfora para o caos político e social que o país vivia na época. Para Fela, ambos eram símbolos de paralisação e impotência, quase como uma forma de prisão.
Question Jam Answer mantém o tom filosófico, explorando questões relacionadas à condição e sobretudo às relações humanas. O álbum se encerra com Trouble Sleep Yanga Wake Am, uma balada tradicional nigeriana que se destaca por ser muito diferente de quase tudo o que Fela já havia feito até então.
Afrodisiac (1973)

Após o sucesso de Fela em sua terra natal com a primeira banda, os Koola Lobitos — na qual misturava os sons que absorvera na Inglaterra com a música tradicional nigeriana — o músico foi convidado pela EMI, sua então gravadora, para gravar em Abbey Road. Assim nasceu Fela’s London Scene (1971), seu segundo álbum de estúdio desde o fim dos Koola Lobitos. Para a gravação, Fela levou nove músicos do Africa 70; os demais eram músicos de estúdio baseados em Londres, já que a EMI se recusou a pagar as despesas de viagem do restante do grupo.
Aproveitando a ocasião, Fela e sua banda decidiram regravar alguns singles que haviam recebido boa acolhida do público nigeriano. O resultado foi Afrodisiac, um de seus discos mais importantes. Não por acaso, para conceberem o clássico Remain in Light, os Talking Heads beberam profundamente dessa fonte afrodisíaca.
Gentleman (1973)

Um dos álbuns mais importantes da discografia de Fela, Gentleman marcou época como a porta de entrada para o período mais prolífico de sua carreira, conhecido como Purple Period, que se estenderia até o ataque militar à comuna Kalakuta, em 1977. Apenas entre 1975 e 1977, Fela lançou impressionantes 17 LPs.
A faixa-título é uma das mais brilhantes de seu vasto acervo. Nela, o compositor critica o que via como um complexo de inferioridade cultural presente em parte da população africana, que adotava roupas de estilo europeu. Para Fela, essa mentalidade era um obstáculo ao desenvolvimento do continente. Em Gentleman, ele canta: “A África é quente, e eu também; eu sei o que usar, mas meu amigo não sabe; ele coloca meias, sapatos; coloca calças, coloca camisa, coloca gravata, coloca sobretudo; ele é um cavalheiro; vai suar inteiro, vai desmaiar, vai cheirar à merda… Eu não sou cavalheiro desse jeito; sou um homem africano original”. A capa do disco reforça essa crítica ao mostrar um macaco usando sobretudo.
O álbum segue com Fefe Na Efe, um provérbio em ashanti — idioma da importante etnia ganesa de mesmo nome — que descreve “a beleza de uma mulher quando segura seus seios enquanto corre”. A música é um tributo a Gana, país vizinho à Nigéria, onde Fela tinha grande número de fãs, além de fortes laços pessoais que incluíam amizades e esposas.
A última faixa, Igbe, mostra Fela mais uma vez rompendo tabus ao abordar traições dentro das relações de amizade. O título significa literalmente “merda”.
Uma curiosidade é que, nesse mesmo ano, Paul McCartney esteve na Nigéria com o Wings a convite da EMI para gravar o icônico Band on the Run. Ele chegou a registrar uma faixa no estúdio de Ginger Baker (Picasso’s Last Words). A visita foi marcada por um episódio curioso: jornais de Lagos noticiaram que Fela estaria acusando McCartney de tentar “roubar a música africana”. Paul telefonou para Fela e o convidou para acompanhar uma sessão de gravação, na tentativa de desfazer o mal-entendido. O encontro não apenas encerrou a tensão como deu início a uma boa convivência; Fela ainda levou McCartney ao The Shrine, e os dois tiveram uma ótima noite juntos.
Expensive Shit (1975)

No ano de 1975, a popularidade do músico estava começando a explodir, e sua casa de shows, (The Shrine) lotava todas as noites, assim como suas apresentações pelo país. Fela respirava música, e continuava extremamente prolífico, lançando 7 discos no ano, além de produzir e tocar no primeiro LP de Tony Allen (Jealously).
Dentre os sete álbuns lançados em 1975 está o clássico “Expensive Shit, que é considerado por muitos o melhor trabalho de Fela, e provavelmente é o mais reconhecido. A história do álbum é realmente icônica, e o compositor a relata de maneira descontraída na faixa título. Vendo a Kalakuta e Kuti como ameaças, o governo nigeriano enviou policiais com o objetivo de prendê-lo por posse de maconha. Como não acharam nada, voltaram na semana seguinte trazendo um cigarro no bolso. Fela achou o cigarro que plantaram na casa e o engoliu imediatamente, acabando com qualquer evidência de crime.
Mesmo assim, os agentes levaram-no e o mantiveram detido por 3 dias, aguardando um exame que pudesse incriminá-lo (sim, de fezes). Depois de trocar os recipientes com a ajuda dos detentos, Fela se viu livre de qualquer possibilidade de incriminação. Do incidente, vem o nome “Expensive Shit” (Merda cara).
O disco é uma aula de Afrobeat, e a faixa título, uma das mais influentes do gênero. Um detalhe é que Fela e o Africa 70’ nunca tocavam músicas presentes em álbuns em shows. Era tudo inédito ou improvisado, o que contribuía para o entrosamento de uma banda que estava em seu ápice produtivo. A segunda faixa, “Water Get No Enemy” tem um cunho mais filosófico, tratando a água como uma representação da fluidez da música e de todos os elementos do universo. É baseada em um provérbio ioruban sobre o poder da natureza.
Noise For Vendor Mouth (1975)

Com uma discografia tão extensa, mais de 40 LPs, é natural que alguns álbuns acabem ficando um pouco esquecidos. Noise For Vendor Mouth, lançado em 1975, é um desses casos: uma joia discreta dentro do vasto acervo de Fela. O disco foi gravado no estúdio de Ginger Baker poucos meses antes de mais um golpe de Estado na Nigéria e dois anos antes da invasão militar à comuna Kalakuta. Mesmo antes desse golpe, a relação entre o governo e a comunidade de Fela já estava repleta de tensões. Para o Estado, a Kalakuta era vista como um lugar de vagabundos, usuários de drogas e “hooligans”.
A faixa-título é um tributo a todos que viviam ali, exaltando o fato de serem trabalhadores esforçados tentando levar uma vida digna em meio a uma sociedade corrupta e rigidamente hierárquica. Para Fela, os insultos que recebiam não passavam de “o barulho da voz de um vendedor da feira”. Em contrapartida, ele afirmava que os verdadeiros hooligans eram os políticos.
A segunda faixa, Matress, costuma ser alvo de controvérsia. Fela era assumidamente poligâmico — chegou a ter 27 esposas simultâneas — e muitas vezes foi acusado de não dialogar com a luta feminista. Sua abordagem sobre o tema sempre foi explícita, e aqui ele fala abertamente sobre sexo, defendendo que a poligamia seria algo natural ao ser humano, segundo sua visão.
Musicalmente, Noise For Vendor Mouth apresenta uma dinâmica impressionante. A faixa-título se constrói a partir de uma introdução de quase quatro minutos que abre caminho para uma catarse prolongada, sustentada por grande parte da música. Em ambas as faixas, a bateria de Tony Allen é extraordinária, especialmente quando dialoga com o baixo de Franco Abbody e com a guitarra rítmica de Leke Benson, talentoso guitarrista que havia ingressado na banda naquele ano e que mais tarde participaria de discos como Kalakuta Show e Expensive Shit.
Kalakuta Show (1976)

Em 1975, o compositor mudou seu nome de Fela Ransome-Kuti, que considerava uma designação colonial e cristã, para um nome que julgava legitimamente africano: Fela Anikulapo-Kuti. No mesmo período, renomeou também sua banda, que passou de Africa 70’ para Afrika 70. Ambas as novas designações apareceram pela primeira vez na capa do excelente álbum Ikoyi Blindness, lançado em 1976. Nesse mesmo ano, Fela se envolve mais profundamente com o grupo político de esquerda “Young African Pioneers”, do qual seu artista gráfico Lemi Ghariokwu é membro ativo. Inevitavelmente, essa aproximação desperta ainda mais atenção das autoridades nigerianas.
Kalakuta Show narra um dos inúmeros confrontos entre a comuna e a polícia de Lagos. O episódio ocorreu dois anos antes, quando policiais invadiram a Kalakuta baseando-se na acusação falsa de que Fela teria sequestrado uma mulher. Eles lançaram gás lacrimogêneo e esvaziaram toda a propriedade, agredindo indiscriminadamente seus moradores. Todas as mulheres detidas eram maiores de idade e negaram terem sido sequestradas. Foi apenas mais uma tentativa frustrada de incriminar o músico. No plano musical, Kalakuta Show está entre as faixas mais catárticas da carreira do Black President — uma obra-prima absoluta.
A segunda e última música do LP, Don’t Make Ganran Ganran, critica a postura gananciosa e egoísta da elite nigeriana. Fela reforça que o direito à terra pertence a todos, porque “somos todos filhos e filhas da terra”, e lembra que “quando o céu cair, cairá sobre todos”. A percussão e a bateria se entrelaçam de forma hipnótica, enquanto os metais harmonizam e ornamentam o restante da faixa. Os vocais femininos surgem mais uma vez, enriquecendo ainda mais a textura sonora.
Zombie (1976)

Os militares já cultivavam um profundo ódio por Fela havia anos, mas Zombie foi o disco que realmente os enfureceu e se tornou um dos grandes estopins para o brutal ataque que destruiu a Kalakuta.
Na faixa-título, Fela adota um tom de deboche para comparar os soldados a zumbis, figuras que obedecem sem pensar. Ele ironiza os homens fardados como seres “sem cérebro, sem trabalho, sem bom-senso”, repetindo comandos militares de forma caricata, como se estivesse zombando daquele "adestramento cego". O sarcasmo, embalado por uma massa rítmica irresistível, funciona como uma denúncia contundente do autoritarismo do regime.
A segunda faixa, Mister Follow Follow, aprofunda a crítica. Fela aponta o dedo para aqueles que seguem ordens e discursos com os olhos, bocas e ouvidos fechados, incapazes de questionar as estruturas de poder que os manipulam. Musicalmente, a faixa é igualmente poderosa: o groove se estende por longos minutos, hipnótico, enquanto os vocais femininos dialogam com Fela e os sopros pontuam a faixa com precisão cirúrgica.
O FESTAC e o fim do Purple Period
Após anos de idealização, em janeiro de 1977 o FESTAC finalmente aconteceu. Era um festival de proporções olímpicas, sediado na Nigéria, com quase um mês de duração e o objetivo de reunir artistas negros de todos os continentes. Fela Kuti, por ser o artista mais importante do país, foi convidado para integrar o Comitê Nacional de Participação ao lado de outros nomes nigerianos.
Fela chegou a se envolver brevemente, mas logo renunciou ao cargo quando passou a desconfiar das reais intenções do evento. Os gastos ultrapassavam 400 milhões de dólares, algo completamente absurdo diante do cenário social nigeriano. Indignado, ele distribuiu panfletos pela cidade anunciando seu próprio festival, que aconteceria simultaneamente ao FESTAC no The Shrine.
A influência de Fela era tão grande que boa parte do público passou a frequentar o Shrine em vez do evento oficial. O espaço recebeu apresentações de Stevie Wonder, Sun Ra, Osibisa e outros artistas importantes. As críticas que o músico fazia ao governo e à organização do FESTAC deixaram as autoridades em absoluto desespero. O estopim estava armado.
No dia 18 de fevereiro, ocorreu o ataque que marcou o fim da República da Kalakuta. Mil soldados invadiram o local e destruíram tudo. Durante a operação, dezenas de mulheres foram estupradas, Fela e outros moradores foram espancados e sua mãe foi arremessada da janela do segundo andar. Ela morreria meses depois em consequência das lesões. O governo também determinou o fechamento do The Shrine. Foi o fim do Purple Period e ficou uma mancha eterna na história do FESTAC.
Impedido de se apresentar na Nigéria, Fela partiu para uma turnê em Gana. Ele ainda gravaria mais de vinte álbuns até sua morte, em 1997. Mas essa parte da história fica para outro dia.
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