Quando os astros de Van Morrison se alinharam
- Eduardo Raddi

- 2 de out. de 2025
- 5 min de leitura
Era uma noite qualquer no ‘Catacombs’ – pequeno bar de jazz da Boylston Street, em Boston, já desaparecido do mapa. Três jovens músicos se apresentavam diante de pouco mais de 50 pessoas. O que ninguém poderia imaginar é que presenciava o embrião de um álbum destinado a se tornar um clássico.

Apenas um ano após a saída de sua primeira banda – o Them – e sem gravadora, Van Morrison recebe um telefonema do produtor Bert Berns, dono da Banger Records, e vai até Nova Iorque para assinar rapidamente um contrato. Logo depois seria lançado seu primeiro disco solo, resultado de uma coletânea de singles que o compositor havia concebido após assinar com a gravadora.
Morrison não estava ciente do lançamento, ou sequer da concepção do álbum. As faixas foram organizadas e lançadas no LP ‘Blowin Your Mind’, de 1967, que constituiu basicamente em uma tentativa de integrar Morrison – que era até então um “Mod” – ao mercado pop estadunidense, no maior estilo californiano, desde a lista de faixas até a arte de capa – que desagradaram o músico.
Seu contrato com a gravadora era péssimo, tanto do ponto de vista financeiro, quanto pelo fato curioso de que a Banger Records tinha uma forte ligação com a máfia. Meses depois do lançamento do LP, o produtor – que sofria de problemas cardíacos – faleceu, piorando ainda mais a situação de Morrison, já que a nova dona da empresa, Illene, era viúva de Bert, e culpou o músico pela morte do marido. Isso foi o pontapé de uma disputa judicial com o compositor, que o barrou de fazer apresentações em Nova Iorque, por questões burocráticas de quebra de contrato. Além disso, sujeitos nada amigáveis começaram a ameaçá-lo em diversas ocasiões (Neil Diamond conta histórias parecidas sobre o tempo em que trabalhou na companhia).
Em função disso, Morrison se mudou para Massachussets, onde passou a tocar com músicos locais na banda que batizada de “The Van Morrison Controversy” O grupo teve três formações em poucos meses, tocando sempre um pop rock tradicional com instrumentos elétricos – fato curioso tendo em vista a sonoridade do Astral Weeks. De acordo com o guitarrista John Sheldon, que participou da banda por um breve período, um belo dia Morrison contou aos integrantes que havia tido um sonho. Sonhara que não existia mais eletricidade no mundo.

Depois do sonho, a bateria e os instrumentos elétricos foram eliminadas da banda e o compositor passou a fazer apenas performances acústicas, moldando o que seria o “esqueleto” de seu mais icônico álbum, enquanto se apresentava em bares das redondezas ao lado do baixista Tom Kielbania e do flautista John Payne, integrantes da nova formação do grupo, que a partir de então abandonou a alcunha de “Morrison Controversy”.
Uma dessas apresentações no Catacombs foi gravada em uma fita, curiosamente por Peter Wolf – futuro vocalista do J Geils Band, banda oriunda da cidade e que também começaria a carreira se apresentando no estabelecimento. O registro só veio à tona décadas depois, graças às pesquisas do autor Ryan Walsh para o livro “Astral Weeks: A Secret History of 1968”, que conta detalhadamente a trajetória de Morrison desde o princípio de sua mudança de Nova Iorque para Cambridge até a criação do disco.

A concepção do álbum e suas faixas
Finalmente terminados os percalços com a Banger Records, Morrison foi então contratado pela Warner e voltou à Nova Iorque para assinar o contrato e começar a trabalhar com o produtor Lewis Merenstein - que recrutaria um time de peso para a gravação do próximo disco do compositor.
Era uma banda de jazz, liderada pelo baixista Richard Davis – já conhecido por participações em álbuns lendários como Out to Lunch, de Eric Dolphy (1964), e Point of Departure, de Andrew Hill (1965). Ao seu lado estavam o baterista do Modern Jazz Quartet, Connie Kay; o vibrafonista e percussionista Warren Smith Jr.; e o guitarrista Jay Berliner – estes dois últimos veteranos de sessões com Charles Mingus. Também marcaram presença o flautista e saxofonista soprano John Payne – que já vinha se apresentando ao lado de Morrison – e o arranjador Larry Fallon.
O que chama a atenção no álbum é a maneira prosaica e formal na qual foi concebido. De acordo com os músicos, Morrison sequer conversou com eles ou deu qualquer palpite em relação às faixas. Quase tudo que ouvimos no disco veio do improviso. Foram apenas três sessões de gravação quase completamente ao vivo, com o disco inteiro finalizado em “nove ou dez horas”, de acordo com o próprio Morrison em entrevista para Bob Harris (BBC) em 1973. Nenhum dos instrumentistas recrutados por Merenstein sequer já havia ouvido falar no compositor.

O álbum contém 8 faixas que criam uma aura única, conversando entre si de maneira muito coesa:
Astral Weeks – Há uma Fantástica orquestração que se estende ao longo da música ao lado da abundante linha de baixo de Richard Davis. Na letra, Morrison pinta de maneira mística a vida e todas as complexidades de nossa existência.
Beside You – Na faixa mais calma do disco o violão e a flauta se destacam na criação de uma atmosfera melancólica e barroca, que fartamente aduba o terreno para a subida majestosa da próxima canção. A música soa como um lindo sonho febril.
Sweet Thing – A poesia, que retrata o jovem otimista pela possível reconquista de seu amor perdido, é amalgamada a um instrumental que se inicia catártico e ascende constantemente em uma orquestração de flauta e violino que parece vir de um plano superior. A interpretação de Morrison é de outro planeta. Aos seus 23 anos, ele canta a juventude e a mimetiza através de uma extravasante performance que transborda vida e amor.
Cyprus Avenue – A Faixa viaja imageticamente por Belfast, terra natal do compositor, num fluxo de consciência evocativo que Morrison cria liricamente. Novamente são lindos os arranjos de cordas criados por Larry Fallon, que se destacam durante toda a obra.

The Way that Young Lovers Do – Em uma das faixas mais enérgicas do álbum, o saxofone se sobressai ao lado da rápida e sincopada levada da “cozinha”, criando uma vigorosa aura. Assim como em Sweet Thing, Morrison canta a juventude.
Madame George – É como uma fantástica pintura fauvista, onde o baixo de Davis parece pincelar a base para os coloridos violinos que transbordam dentro da gigante tela sonora pincelada pela incrível lírica e impostação de Morrison. O vocal e o baixo se conectam de maneira exuberante, até a entrada da bateria, que cria um clímax ainda maior do que toda a faixa já provém.
Ballerina – A música foi composta quando Morrison ainda estava em turnê com o Them. A atmosfera aqui, porém, é outra. O arranjo com vibrafone e violinos unidos a linda poesia nos entregam a música mais doce do disco.
Slim Slow Slider – O sax soprano lindamente executado por John Payne se mescla à poesia de fluxo de consciência de Morrison, criando mais um lindo sonho febril. Uma curiosidade é que o improviso que se ouve no final, logo antes do abrupto fade out, originalmente se estenderia por mais de um minuto.
Astral Weeks exala uma profusão de sentidos e cria uma fantástica atmosfera mística que nos transporta lírica e musicalmente a outros planos de nossos imaginários. Por todo o contexto de sua gravação, é gostoso acreditar que um certo alinhamento de astros possa ter influenciado todos naquelas três breves sessões de gravação na primavera de 1968. Além do vigor e originalidade natural e ímpar da voz de Morrison, os doces instrumentais entregues pela fantástica banda a partir de uma mistura de elementos de música tradicional irlandesa, Folk, e naturalmente, jazz, fazem da audição de Astral Weeks um verdadeiro deleite.
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