Drakkar: Rock psicodélico, guerra e Pol-Pot
- Eduardo Raddi

- 21 de jan.
- 5 min de leitura
Como a música da banda atravessou a guerra civil, o genocídio do Khmer Vermelho e virou documento histórico

Em 1972, durante o governo Richard Nixon, os Estados Unidos invadiram o Camboja e apoiaram um golpe que depôs o príncipe Norodom Sihanouk. No lugar, assumiu o ditador Lon Nol, aliado de Washington e peça-chave para a manutenção dos interesses norte-americanos na região, considerada estratégica para a Guerra do Vietnã. Com o novo governo os Estados Unidos passaram a financiar o exército cambojano, que passou de 37.000 soldados para mais de 200.000 em dois anos, segundo fontes do próprio NY Times.

Logo após a ascenção de Lon Nol ao poder, os Estados Unidos renovaram seus bombardeios contra bases vietcongues no Camboja, e tropas americanas e sul-vietnamitas invadiram o país.
Uma guerra civil generalizada teve início. De 1970 a 1975, o Khmer Vermelho cresceu de cerca de 3.000 guerrilheiros para cerca de 30.000. Foi nesse contexto que Pol Pot assumiu o poder, instaurando uma ditadura genocida.
Drakkar
Enquanto no Vietnã, país vizinho, havia guerra, no Camboja e especialmente na capital Phnom Penh surgia uma cena musical movimentada. O primeiro estúdio da cidade foi a Rádio Nacional, onde todas as orquestras, bandas e artistas solo eram convidados para gravar. A Rádio também trouxe a música de artistas do outro lado do mundo, como Santana e Wilson Pickett, que influenciaram os músicos locais. Logo surgiram ícones populares cambojanos, como Huoy Meas, Ros Sereysothea e Sinn Sisamouth.
Foi nesse contexto de ebulição cultural que o Drakkar surgiu. A banda foi formada em 1967 pelo guitarrista base e compositor Touch Seang Tana, o guitarrista solo Touch Chhatha, o baixista Mam Molivan e o vocalista Tan Phanareth, contando com bateristas temporários nesse início. No começo da década de 1970, após a saída de Molivan e Phanareth, a formação mudou: Ouk Sam Art assumiu a bateria, Oeu Sam Ol ficou no baixo e Som Sareth entrou como guitarrista. Tana tornou-se o vocalista principal, embora os demais integrantes também dividissem os vocais e o LP da banda tenha sido gravado com cantoras contratadas.
“Misturávamos a música do Cambodia com o Rock ‘N Roll” - Touch Tana
O grupo gravou seu primeiro LP em sessões entre 1972 e 1973. O disco foi lançado em 1974.
As vendas iniciais foram tão baixas que Touch Tana desistiu temporariamente da música e se mudou para Pailin, no oeste do Camboja, para tentar um novo empreendimento. No entanto, no final daquele mesmo ano, recebeu uma ligação inesperada de seu irmão: o disco havia alcançado a marca de 20 mil cópias vendidas, tornando-se o álbum mais vendido da história do país até então. No cenário cambojano da época, em que a indústria fonográfica ainda dava seus primeiros passos, esse número representava um feito monumental, capaz de transformar um grupo em verdadeiro fenômeno cultural.
Animada pelo sucesso repentino, a banda decidiu produzir mais uma tiragem de 20 mil exemplares, que rapidamente se esgotou. Os planos já se voltavam para uma terceira leva de prensagens, o que poderia consolidar o Drakkar como o maior nome da cena rock local. Contudo, qualquer possibilidade de futuro foi brutalmente interrompida com a ascensão do regime de Pol Pot, que mergulhou o país em uma das páginas mais sombrias de sua história.
Quando Heng Samrin tomou o poder em 1979, os artistas voltaram a Phnom Penh. Aqueles que não voltaram, foram considerados mortos. Dentre eles um dos guitarristas do Drakkar Som Sareth e o baixista Oeu Sam Ol, que nunca mais foram vistos após o regime de Pol Pot. As três cantoras que gravaram vocal principal em oito faixas do álbum também desapareceram durante a ditadura.
“Eu conheci um grupo de soldados. Eles tinham um violão mas não sabiam tocar. Um dia eles me pediram para ensina-los, já que eu sabia. Então eu o afinei e toquei uma música revolucionária do khmer e eles gostaram. Me deram maços de cigarros e me trataram muito bem. Dois meses depois todos os soldados da unidade foram trocados e nunca mais os vi.” – Tana, em entrevista para o site Greta Kite-Gilmour.

Chhattha e Tana sobreviveram por que sabiam tocar. Tiveram que se apresentar frequentemente para os soldados do Khmer Vermelho. Para os músicos, o talento que antes os projetara ao sucesso nacional se transformou em algo como um salvo-conduto diante do regime. Em vez de serem vistos como artistas populares, eram obrigados a entreter soldados, vivendo diariamente com a incerteza de até quando seriam poupados.
“Eu tive sorte. A razão pela qual eu sobrevivi foi por que sabia tocar. Na reunião deles (khmer Vermelho), tinha uma banda de música tradicional. Eu memorizava as músicas e tocava com eles. Eu tive que tocar todos os dias.” – Touch Chhattha (guitarrista).
Mesmo sem o apoio do ocidente, no final de dezembro de 1978 o Vietnã invadiu o Camboja para remover Pol Pot. Estima-se que dois milhões de cambojanos morreram nas mãos do regime do Khmer Vermelho, dentre elas milhares de vietnamitas, tanto aqueles que moravam no no Cambodia, quanto os que morreram através dos ataques transfronteiriços contra o Vietnã em que as tropas de Pol Pot massacraram civis e incendiaram aldeias.
“Quando a rádio disse que as tropas de Heng Samrin estavam chegando, tive esperança de sobreviver e sermos livres novamente.” - Touch Chhattha
Em janeiro de 1979, Pol Pot fugiu e Phnom Penh ficou sob controle vietnamita.
“Após a libertação, em 1979, eu compreendi que poucos artistas tinham sobrevivido.” - Touch Chhattha
O álbum

O LP é composto por nove músicas, com mais quatro faixas bônus em serviços de streaming como o Spotify. Das nove originais, oito contam com a participação de cantoras convidadas, reforçando o caráter colaborativo e feminino que marca grande parte do disco. Os vocais incorporam elementos característicos da música popular cambojana, como os melismas e vibratos tradicionais do canto Khmer. Isso não seria possível sem a participação de Pen Ran, uma cantora de relativa popularidade na época, que interpreta quatro faixas. Além de Ran, Keo Sokha canta em três músicas e Mao Sareth em uma.
O disco já começa em seu ponto mais alto com a faixa Boer Chhang Ban Onn, que se apoia majoritariamente em uma instrumentação de caráter tradicional, guiada por percussão cadenciada e uma linha de baixo envolvente. O elemento do rock surge apenas na guitarra elétrica, que, apesar do timbre, desenha frases tipicamente cambojanas e conversa perfeitamente com o vocal agudo, cristalino, e quase angelical de Pen Ran. É o mesmo caso da quinta faixa, Onn Ro Ngea Doal Chhaoeung Khnong também interpretada de maneira inconfundível por Pen Ran.
A segunda faixa, Sarawan Chhan Penh Boromei, interpretada por Keo Sokha, segue uma linha parecida, com uma pegada bastante tradicional e guitarras limpas. A banda canta em uníssono respondendo as frases da vocalista. Em seguida, na única participação de Mao Sareth, Boer Bang Min Maytha é uma balada bucólica que mistura elementos ocidentais a uma atmosfera tropical, contendo um trecho de andamento mais rápido com solos de guitarra e uma cozinha amarrada.

Em Chhkuot Chhet Thbet Snae Onn, quarta faixa do LP, a influência do rock é mais evidente. Com riffs de guitarra poderosos e distorcidos, viradas de bateria vigorosas, uma linha de baixo pesada e o único vocal principal masculino do LP (de Touch Tana), a música poderia ter saído diretamente de São Francisco, não fosse cantada em Khmer.
Moeul Khos Hoeuy Mae, sétima faixa, é outro ponto alto, com um riff marcante com muitos efeitos de guitarra tocando fraseados regionais formando uma camada para o vocal de Pen Ran.
Onn Chhang Pralaong Sarawan, penúltima faixa, mostra Keo Sokha em seu vocal mais intenso, com uma base rítmica que mistura elementos que remontam ao soul norte-americano, que misturados às frases de guitarra e os vocais tipicamente cambojanos, a tornam única.
Todas as composições são de Touch Tana.
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