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13 Discos Para Conhecer o Som Exuberante da Turquia

  • Foto do escritor: Eduardo Raddi
    Eduardo Raddi
  • 2 de nov. de 2025
  • 9 min de leitura

Atualizado: 4 de nov. de 2025

Do coração da Anatólia, uma fusão vibrante entre Oriente e Ocidente deu origem a um dos sons mais exuberantes do planeta: o anadolu rock, mistura única de tradição e psicodelia.



Nascido em meio à diversidade cultural da Turquia e à efervescência dos anos 1970, o anadolu rock surgiu como uma ponte entre mundos. Artistas da capital Ancara e de outras regiões começaram a mesclar instrumentos e escalas típicos do país com guitarras elétricas, sintetizadores e ritmos ocidentais, criando uma sonoridade inconfundível. Essa “sopa étnica”, resultou em discos de sonoridade única. Nos últimos anos, o gênero tem ganhado nova vida — seja por jovens músicos turcos que o reinterpretam, seja por colecionadores e selos ocidentais que redescobriram seus tesouros.


Nesta lista, selecionei 13 álbuns essenciais:



Erkin Koray – Erkin Koray (1973)


Aclamado como uma das maiores lendas da cultura turca, Erkin Koray é, por lá, um verdadeiro rockstar. Pioneiro, foi um dos primeiros a introduzir a guitarra elétrica na música do país, abrindo caminho para toda uma geração de artistas. Sua trajetória começa ainda no fim dos anos 1950, com releituras de Elvis Presley e Fats Domino, e logo ganha força: na primeira metade da década seguinte, Koray já era um nome conhecido em toda a Turquia. Naquele período, porém, era comum que os músicos lançassem apenas singles, e poucos conseguiam gravar LPs — talvez por isso seu primeiro álbum completo só viesse em 1973, depois de mais de uma dezena de compactos.


Apesar de seu espírito roqueiro, Koray jamais se afastou da sonoridade tipicamente turca, mesmo em seus momentos mais pesados. “İstemem”, por exemplo, talvez seja a música turca mais intensa que já ouvi: um riff desconcertante abre caminho para uma alternância imprevisível entre distorção e ritmo tradicional, fundindo duas linguagens de forma magistral. Essa mistura é a essência do disco — onde o psicodelismo californiano encontra o rock and roll que o revelou ao público, e ambos se dissolvem no regionalismo denso e místico da Anatólia. O resultado é um som que parece atravessar fronteiras e eras, mantendo-se tanto vibrante quanto enraizado.



Mustafa Özkent – Gençlic Íle Elele (1973)


Nesse disco excepcionalmente bem-produzido, o compositor, arranjador e guitarrista Mustafa Özkent, cria um frankestein alimentado por peças do surf rock do The Ventures e percussões hora no maior estilo Incredible Bongo Band, hora Ray Barreto. Mas não, é claro, sem o tempero turco: como luthier, o músico construía suas próprias guitarras com características exclusivas, no objetivo de mimetizar a sonoridade do Baglama, gerando sons únicos os quais ouvimos nesse trabalho frenético, eletrizante e dançante.



3 Hür- El – Hürel Arsivi (1974)


Numa época em que ascendia a forte onda dos “power trios” no rock, encabeçada por gigantes como o Cream e o Jimi Hendrix Experience, era de se esperar que isso se refletisse no resto do mundo. Na Turquia, não foi diferente. O 3 Hür-El (traduzido para o português “3 Mãos Livres”) foi formado em 1970 e lançou seu primeiro disco em 1972. Dois anos depois, veio o segundo álbum, “Hürel Arsivi”. Ouvindo os dois, é possível notar uma considerável maturação da banda no segundo trabalho em relação ao debut.


O LP começa de maneira bombástica com a instrumental, empolgante e fortemente percussiva “Kol Basti”, abrindo alas para o blues veloz de “Mutluluk Bizim Olsun”. Essa confluência da sonoridade tradicional da anatólia com o blues – que era raramente abordado por artistas turcos – segue durante o resto do LP. Em certos momentos a guitarra entra com uma riffagem de peso – especialmente em “Omür Biter Yol Bitmez” – e em outros o instrumento é abandonado, dando lugar apenas às ricas percussões que dialogam com o baixo e o vocal – como se ouve em Döner Dünya.



Cem Karaca – Cem Karaca “convida” Apaşlar, Kardaşlar, Moğollar e Ferdy Klein’a Teşekkürleriyle (1974)


Gravado ao lado de diferentes bandas de apoio – das melhores da época – esse é o segundo álbum da carreira solo de Cem Karaca. No disco, o compositor, que já havia sido membro do Moğollar e do Apaşlar, reencontra seus companheiros em um álbum mais calcado na música folclórica tradicional turca do que propriamente no rock.


É um dos LPs mais versáteis da lista. Ao longo de seus 45 minutos de duração, ouvimos uma profusão de percussões regionais, flautas, e até sitara (na faixa “Beyaz Atli”). A influência do pop também é perceptível em certos momentos, como na linda balada “Unut Beni” – que lembra até Odair José – e do rock em “Edali Genin”, com direito a guitarras ornamentadas com wah wah. A última faixa, “Ubur Dünia” – executada com o Moğollar como banda de apoio – é um clássico rock anatólio, amalgamando guitarras muito bem tocadas a instrumentos tradicionais do país, como o Tambur.



Barış Manço – 2023 (1975)


Barış Manço foi um dos principais nomes do movimento e, já no início da década de 1970, era cultuado pela juventude do país. Seu primeiro lançamento em LP, “Dünden Bugüne”, foi na verdade uma compilação de todos os singles anteriores. Para o segundo álbum, Manço preparava algo muito mais desafiador e poucas vezes visto na Turquia. Um álbum conceitual de temática futurista, que se trata de um homem que vive no ano de 2023 e contempla o passado. Mais especificamente 100 anos no passado, em 1923, ano em que o poderoso império otomano – que vigorava desde 1299 – ruinou. Desde a independência em 1923, até 1974 – ano da concepção da obra – a Turquia sofreu dois golpes de estado (1960 e 1971). É sobre as reminiscências de todo esse dinâmico e violento contexto histórico do país que o álbum se trata.


Na imaginação do compositor, influenciado pelos movimentos socialistas que presenciou em Paris e Bruxelas – cidades onde estudou – a Turquia do futuro se basearia em comunidades rurais. Mal sabia ele que mais uma sequência de golpes se seguiria, e hoje, a menos de dois anos de 2023, o país seria comandado por um ultraconservador (Erdogan). Musicalmente Manço cria, de maneira coesa, uma ambientação bonita e viajante, com protuberantes camas de teclado que se estendem ao longo do LP. A influência do rock progressivo absorvida por ele em sua estadia na Europa também aparece. Destaque para o “embriagado” regionalismo de “Acih Da Baga Vihr” e a viagem sônica de “Uzun Ince Bir Yoldayim”, que me lembra “Planet Caravan” (Black Sabbath).



Selda – Selda (1976)


Uma das mais proeminentes artistas do anadolu rock, Selda Bagcan construiu uma carreira de mais de quatro décadas e lançou discos memoráveis e subversivos em uma época politicamente conturbada de seu país. O LP homônimo, de 1976, é considerado o principal trabalho da compositora e uma ótima porta de entrada para quem quer mergulhar na música turca. É um disco que emite psicodelia através do fuzz, dos riffs frenéticos e do casamento da guitarra com o baglama. As letras, em sua maioria, são de protesto e apoio à classe trabalhadora. Existe um senso de urgência na impostação da voz de Selda e uma beleza única nos instrumentais que, mesmo que não entendamos o turco, a mensagem parece transcender qualquer tipo de linguagem.


Leia o artigo completo sobre o disco de Selda aqui



Zafer Dilek – Oyun Havalari (1976)


Zafer Dilek foi uma das figuras mais prolificas da cena. Esteve presente em mais de uma centena obras dentre compactos e LPs, fosse como arranjador, produtor, instrumentista ou compositor (isso sem contar as dezenas nos quais não foi creditado). Dilek produziu o clássico supracitado de Selda Bagcan, participou do também excelente segundo álbum da cantora, além de ter tocado Baglama e arranjado um dos primeiros compactos de Ersen.


Nesse raríssimo segundo LP solo do compositor – prensagem única de 1976, nunca relançado sequer em CD – Zafer desfila seu virtuosismo e enorme qualidade como arranjador através de dinâmicos e envolventes instrumentais devidamente ornamentados de agradáveis cores e sabores turcos.



Ersen – Dünden Bugüne (1977)


Um dos músicos mais virtuosos da cena, Ersen Dinleten se tornou um multi-instrumentista ainda na infância. Muito cedo aprendeu violino, bandolim e violão. Criado em bairro pobre de Istambul, começou a trabalhar tocando músicas folclóricas turcas em eventos como festas de casamento e afins, até o fim da década de 1960, quando um recém-lançado à fama Cem Karaca reconheceu o talento do então jovem e conseguiu um contrato com a gravadora para seu primeiro single “Olvido/Ak Guvercin”. Em 1970 substituiu Aziz Azmet nos vocais do Moğollar -grupo com o qual gravou uma série de singles.


Em 1977 o músico lançou seu primeiro LP “Düngen Bugüne”. No álbum ele é acompanhado pelo Kardaşlar e o Dadaşlar como bandas de apoio. O LP tem uma sonoridade muito sofisticada e variada. Em Yedin Beni se ouve uma sessão rítmica pulsante e groovada ao lado do teclado, que varia entre uma vistosa levada funk a outra tradicionalmente turca. Destaque também para “Derman Bulunmaz”, um híbrido de um ritmo rápido no estilo Ciftetelli (dança tradicional turca) com solos de piano jazzísticos e fortes grooves de baixo. Em “Güneşe Dön Çiçeğim”, faixa mais baseada no rock, o grupo destila peso e suingue de maneira digna a dar aula para muitas bandas de rock ocidentais da mesma época.



Derdiyoklar İkilisi – Disko Folk (1980)


Esse duo foi formado na Alemanha ocidental em 1974 pelos imigrantes turcos Ali Derdiyoklar e İhsan Güvercin. “Disko Folk” é o segundo LP do grupo e foi lançado, tanto na Turquia quanto na Alemanha, pelo selo Türküola em 1980. No álbum, uma sonoridade totalmente refrescante onde o contemporâneo encontra o folclore (como o título já diz).


O Baglama elétrico se mistura com teclados e levadas de bateria dançantes com muito bom gosto e sem exageros, contando com uma produção excelente para a época, que agrega muito ao trabalho. Temos faixas groovadas – é impossível ficar parado ao som de “Fethiyem” – e viajantes, como “Eminem”, que poderia tranquilamente ter sido gravada por alguma banda neopsicodélica dos anos 2010s.



Gökçen Kaynatan – Gökçen Kaynatan (1968-1982)


Um dos pioneiros da música eletrônica na Turquia, Gökçen Kaynatan começou sua carreira tocando ao lado de Erkin Koray. Após um breve período estudando na Alemanha no início da década de 1970, momento de florescimento do krautrock – cena alemã que unia de maneira até então sem precedentes o rock à música eletrônica – Kaynatan se apaixonou ainda mais pelo sintetizador.


Apesar de se tratar de um prolífico “showman”, o músico gravou apenas singles, sendo esse álbum uma coletânea de seus melhores trabalhos, datados de 1968 até 1982. Lançada em 2017 pela Finders Keepers Records, a compilação tem uma excelente curadoria feita pelo pesquisador e DJ belga Sofa.


No disco ouvimos uma sonoridade eletrônica que remete fortemente a artistas do gênero, como Mort Garson e Gershon Kingsley. Em algumas ocasiões – especialmente na faixa “Sihirbaz” – é possível sentir a influência do Can (os monstros sagrados do krautrock). Em músicas como “Pencenerin Perdesini” e “Beyogl’unda Gezersin”, aspectos do regionalismo aparecem, proeminentes e majestosos. “Lost Island” soa tão contemporânea que poderia ter sido gravada nos anos 2000. O eletrizante trabalho de Kaynaran ajudou a climatizar a cena musical turca e pavimentar o caminho para o que viria a se tornar o anadolu rock.



Derya Yıldırım & Grup Şimşek ‎– Nem Kaldı (2017)


Neste EP, a talentosa compositora, intérprete e multi-instrumentista Derya Yıldırım, acompanhada de seu quarteto, oferece uma verdadeira celebração da música anatólia, combinando tradição e modernidade em arranjos cuidadosamente produzidos. A faixa que dá nome ao disco, Nem Kaldı — originalmente composta nos anos 1970 por Aşık Mahzuni Şerif — ganha aqui uma versão repaginada e envolvente, que mantém toda a força poética da composição original.


Ao longo do EP, Yıldırım conduz o ouvinte pelo universo do Baglama, instrumento central da tradição turca, integrando suas nuances à sonoridade contemporânea da banda. O resultado é um trabalho que respeita a herança cultural da Anatólia, mas com uma abordagem fresca, atmosférica e extremamente envolvente, capaz de encantar tanto os novos ouvintes quanto os conhecedores da cena tradicional.



Gaye Su Akyol ‎– İstikrarlı Hayal Hakikattir (2018)


A cantora e compositora Gaye Su Akyol é uma das artistas mais proeminentes da música contemporânea turca. Em seu terceiro álbum, com uma abordagem que mistura elementos do pop – estilo que hoje se encontra bem livre em relação a experimentações – e produção de primeira prateleira, Gaye entrega um verdadeiro amalgama sônico que vai desde a primeira faixa, que dá nome ao LP – um carro-chefe de características “rapsódicas”, com cantos em uníssono e solo épico de Banglama elétrico – até “Gölgenle Bir Başıma”, um pop de aura misteriosa e elementos eletrônicos.


“Existem muitas bandas boas na Turquia atualmente. Ainda assim, a maioria deveria ser mais corajosa e não ter medo de sua própria cultura.”




Altin Gün – Gece (2019)


Lançando seu primeiro álbum (“On”, o qual também recomendo) em 2018, o grupo turco-holandês Altin Gün trouxe uma renascença do anadolu rock e fez o gênero ganhar holofotes e expressividade. Com o relativo sucesso dos dois primeiros LPs, a banda fez duas turnês nos Estados Unidos – incluindo apresentações na rádio de Seattle KEXP. Em seu segundo disco, “Gece”, o grupo traz uma série de releituras coloridas e refrescantes de artistas folk turcos da década de 1970.


Menções honrosas:


LPs:

Erkin Koray – Elektronik Türküler (1974)

Seyhan Karabay – Kadaslar (1975)


Compactos e EPs:

Şakir Öner Günhan – Hop Taraleylim (1970s)

Moğollar – Çığrık (1971)

Ersen – Pekiştirme / Oy Gülem (1971)

Orhan Gencebay – Aşk Pınarı & Hayat Kavgası (1972)

Nesse Karaböcek – Yali Yali/Cavelinden Öteye (1977)


Não deixe de conferir a playlist!




 
 
 

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