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Resenha: Selda Bağcan - Selda (1976)

  • Foto do escritor: Eduardo Raddi
    Eduardo Raddi
  • 8 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Selda Bağcan construiu uma carreira de mais de quatro décadas e lançou discos memoráveis e subversivos em uma época politicamente conturbada. O LP homônimo de 1976 é considerado seu principal trabalho e uma ótima porta de entrada para quem deseja conhecer a música turca.


Selda 1976 LP capa

Anadolu Rock


O Anadolu Rock, ou Anatolian Rock, surgiu da fusão entre o rock ocidental e a música tradicional turca. Essa tradição já era resultado de séculos de diversidade étnica e cultural, em um país cuja configuração política moderna só foi estabelecida em 1920.


Com a popularização do rock’n’roll e a chegada da guitarra elétrica, diversos países criaram sons híbridos ao unir a cultura de massa ocidental com tradições regionais. Na Turquia, esse processo deu origem a uma cena vibrante no final da década de 1960, liderada por Barış Manço, Cem Karaca e Erkin Koray. Selda cresceria nesse ambiente e se tornaria um dos maiores símbolos da música e da resistência política do país.


Trajetória e LP homônimo


Selda Bağcan nasceu em 1948 em Muğla, no sudoeste da Turquia. Seu primeiro contato com a música veio ainda na infância, através do pai, um veterinário que tocava bandolim. Após a morte dele, Selda e os irmãos se mudaram para Ancara com os tios. Foi lá que descobriu o violão e, mais tarde, a guitarra.


Aos 15 anos, Selda começou a se apresentar no Beethoven, casa administrada pelos irmãos, onde conheceu nomes importantes da cena, como Barış Manço. Sua voz potente e carisma chamaram a atenção do agente de talentos Erkan Özerman. Em 1971, já com 23 anos, lançou o primeiro single, que vendeu mais de meio milhão de cópias e trazia as faixas “Katip Arzuhalim Yaz Yare Böyle” e “Mapusanede Mermerden Direk”, canções nascidas da raiz de seu contato com o folk tradicional turco. 


Selda Bağcan single disco
Capa do primeiro single. (Foto: Reprodução/Discogs)

Cinco anos depois, em 1976, Selda lançou seu primeiro LP, o homônimo Selda, após uma série de singles. O disco contou com o apoio do Moğollar, uma das bandas mais icônicas da Turquia, que além de seus próprios álbuns de sucesso também acompanhava artistas como Cem Karaca e Barış Manço. O grupo reunia Murat Ses (sintetizador), Cahit Berkay (bağlama, bandolim e guitarra), Taner Öngür (baixo, também parceiro de Erkin Koray) e Engin Yorukoglu (bateria). A produção ficou a cargo do prolífico violonista e compositor Zafer Dilek.


Selda Bağcan
Selda na primeira metade dos anos 1970. (Foto: Reprodução/Soundcloud)

O álbum é a melhor síntese do Anadolu Rock. É um LP que exala psicodelia por meio do fuzz, dos riffs desconcertantes e do casamento entre guitarra e bağlama (instrumento tradicional turco). As letras, em sua maioria, falam de protesto e defendem a classe trabalhadora. Há um senso de urgência na voz de Selda e uma beleza única nos instrumentais, que faz a mensagem transcender qualquer barreira de idioma, mesmo para quem não entende turco.


Este trabalho marcante só se tornou conhecido no Ocidente em 2006, quando o selo inglês Finders Keepers Records lançou uma reedição do LP. A reedição despertou interesse não só de colecionadores, mas também de importantes nomes do rap, como Dr. Dre e Mos Def, que utilizaram samples do disco em suas próprias músicas, ampliando o alcance da obra para novas gerações.


Selda e a Resistencia


No dia 12 de setembro de 1980, a Turquia vivia um golpe militar brutal. Militantes comunistas, como Deniz Gezmiş, eram executados, o ex-primeiro-ministro Nihat Erim havia sido assassinado, centenas de jornalistas eram condenados à prisão perpétua, e praticamente todos os músicos do movimento foram forçados a se exilar, especialmente na Alemanha.


Selda Bağcan 1970s
Selda nos anos 1970. (Foto: Reprodução/lastfm)

Selda permaneceu na Turquia, sem parar de cantar ou sequer mudar a temática de suas canções. Em função de sua lírica politicamente inflamada, ela foi presa 3 vezes e chegou a ter seu passaporte confiscado, o que a impediu de participar do WOMAD Festival de 1986 – evento idealizado por Peter Gabriel. No ano seguinte, a partir da pressão da organização do festival, o governo devolveu o documento e Selda conseguiu se apresentar. 


Mesmo aos 76 anos, Selda Bağcan continua viajando pelo mundo em shows, levando sua voz poderosa e sua mensagem de resistência a novas gerações. Ela permanece como um dos maiores ícones da música e da cultura turca.


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