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El Volantin e La Ventana: As Raízes do Los Jaivas

  • Foto do escritor: Eduardo Raddi
    Eduardo Raddi
  • 16 de set. de 2025
  • 6 min de leitura

No início da década de 1970, o icônico grupo chileno lançava seus dois primeiros trabalhos, trazendo uma conexão sonora profunda com as raízes da identidade latino-americana.


Jaivas

O Los Jaivas começa da forma mais natural possível, em um dos incontáveis dias ensolarados da vislumbrante Viña del Mar – mais precisamente na rua Montaña –, onde moravam os irmãos Eduardo, Claudio e Gabriel Parra, alunos do Colégio Guillermo Rivera. Na sala de aula, tornaram-se amigos de Mario Mutis e Eduardo “Gato” Alquinta, iniciando uma relação que atravessaria toda a vida e se fortaleceria justamente naquela mesma casa da rua Montaña.


Com o tempo, das brincadeiras e da criatividade típicas da infância, amadureceu uma conexão artística. Em 1963, os cinco formaram seu primeiro grupo, o High Bass, para tocar numa festa de aniversário do colégio. A banda seguiu ativa e, nos anos seguintes, acumulou experiência se apresentando pela região de Valparaíso, sobretudo na danceteria Chichón, com um repertório de pop tropical que animava os bailes locais.


Banda Los Jaivas
“Está se formando um novo conjunto musical” – Aparição da banda em jornal da época.

Em meados de 1965, o High Bass já figurava entre os ‘combos’ mais conhecidos da região, mantendo a mesma formação pelos três anos seguintes: Eduardo nos teclados, Claudio no acordeon e piano, Gabriel na bateria, Gato na guitarra e Mario no baixo. Apesar do retorno financeiro, a sensação de estagnação musical e a falta de originalidade começaram a frustrar o grupo, que via sua inquietude criativa crescer de forma gradativa.


Essa inquietude levou Gato a deixar o conjunto em 1968, decidido a percorrer a América Latina em busca de suas raízes. Depois de dois anos de viagem e muito aprendizado, ele retornou ao Chile completamente transformado pela experiência e apaixonado pela vasta cultura latino-americana. No reencontro com a banda, encontrou um grupo já mais aberto à vanguarda e influenciado pelo movimento hippie, ao qual passaria toda a bagagem adquirida em sua jornada.


O High Bass então passou a se chamar Los Jaivas, numa escolha simbólica para romper com a influência norte-americana sobre a música latino-americana e aproximar-se das raízes chilenas. A sonoridade do grupo passou a ser fortemente marcada pela música mapuche, descoberta por Gato durante sua viagem e pelo contato com esse povo ancestral, tão fundamental para a cultura do país. Essa influência se manifesta de forma clara no primeiro trabalho da banda: El Volantín.


El Voltantin (1971)


El Volantín

Incumbido pelo espírito libertador de Simón Bolivar, o grupo foi fundo ao utilizar a música mapuche raiz, com flauta e percussões como o Kultrum, a Trutruka e a Cascahuilla, proeminentes ao longo do disco, que aflui de forte experimentalismo. É como uma caminhada pelas noites das florestas latinas como numa dança pelo imaginário regionalista através de um fluxo de consciência.


A primeira faixa, Cacho, representa tais imagens, iniciando a viagem com uma valsa que se estende por poucos segundos e logo vai se afogando em meio à mudança repentina de instrumentos que tomam o lugar do piano. A incorporação do órgão alimenta essa atmosfera e a sinergia do encontro entre o vanguardista e o regional. 


O fluxo segue com os sete minutos de ácidas improvisações percussivas de La Vaquita, um ritual sonoro que começa em transe e aos poucos se desfaz em um redemoinho caótico quando as cordas irrompem em sua segunda metade. Por Veinticinco Empana avança como uma marcha ancestral, sustentada pela pulsação firme da caixa, que conduz a canção como se ecoasse das montanhas mapuches.


Tamborcito del Milagro brinca com os contornos da salsa, mas o faz de forma desconstruída, preparando terreno para Que o la Tumba Serás, onde a salsa aparece em sua forma mais reconhecível, embora atravessada pelo sangue chileno que a transforma em algo único. Já em Foto de Primera Comunión, a guitarra ganha destaque com um timbre que lembra, ainda que de forma remota, Carlos Santana, enquanto o baixo estabelece um ritmo que remete à cumbia peruana e dialoga harmonicamente com percussões andinas, numa fusão intensa e antropofágica.


Los Jaivas
Los Jaivas na primeira metade dos anos 1970. (Foto: Reprodução/Rockaxis)

Na penúltima faixa, Último Día, o grupo soa como se o The Residents tivesse tomado ayahuasca. O LP se encerra com Bolerito, um (pasmem) bolero de apenas 25 segundos, que provoca um choque de contraste em relação à música anterior. É como uma colagem dadaísta ou uma cena fragmentada de um filme de Godard ou Glauber Rocha. Trata-se também de um recurso clássico da música vanguardista, especialmente em trabalhos experimentais de artistas como Frank Zappa, Captain Beefheart e, claro, The Residents – grupo que, curiosamente, é pré-datado pelo Los Jaivas.


El Volantin flui através da naturalidade dos improvisos e da fluência da banda com os ritmos latino-americanos, produzindo uma sonoridade idiossincrática e subversiva que pouco tempo depois seria motivo de perseguição da ditadura do general Augusto Pinochet – financiada pelos Estados Unidos, assim como tantas outras pela América, ta tentativa de manter a subserviência aos interesses imperialistas devidamente atualizada. 


Los Jaivas (La Ventana) - (1972)


La Ventana

Mas foi apenas com o single Todos Juntos, carro-chefe do segundo álbum da banda – Los Jaivas (1972), popularmente conhecido como La Ventana (A Janela) – que o grupo começou a alcançar maior sucesso, conquistando o topo das paradas chilenas e inflamando uma juventude repleta de esperança na construção do socialismo pela via pacífica, sob o governo do presidente Salvador Allende. Meses depois, no entanto, o sonho se transformaria em pesadelo: em 1973, com o assassinato de Allende e a posse do regime fascista de Pinochet, a banda foi forçada a se exilar na Argentina.

Um mundo musical se havia aberto para nós. A janela se abria para um mundo virgem, desconhecido, porém cheio de descobertas que queríamos fazer. - Claudio, em entrevista para o Canal 13, sobre o conceito do LP.

Nesse segundo trabalho, que definitivamente os colocou no mapa, o grupo não abandona completamente a veia lisérgica do primeiro álbum, mas segue por uma linha musicalmente mais acessível ao público em geral. Originalmente lançado como Los Jaivas, o álbum foi relançado posteriormente sob o título La Ventana e Todos Juntos, com faixas bônus e ordem alterada.


O disco ganha ardência subversiva pelas participações de Patricio Castillo e Julio Numhauser, ex-integrantes do grupo revolucionário de folk chileno Quilapayún. Os apitos de Marcha al Interior del Espíritu dão início ao álbum com uma letra onde a banda repete, em uníssono: "Somos amigos, somos irmãos” – reflexo da perspectiva positiva e de união que a juventude chilena tinha até então. O resto do LP conserva essa ideia.


Los Jaivas
Los Jaivas nas alturas de Machu Picchu. (Foto: Reprodução/GGN)

Seguindo está “Mira Niñita”, com uma das letras mais brilhantes do grupo até então, na faixa cuja sonoridade se inicia remetendo às canções acústicas do primeiro álbum do Almendra (1969), e, a partir da metade, agrega uma levada tipicamente andina.


Todos Juntos novamente enfatiza na lírica o anseio pelo coletivismo, em contraponto à ideologia individualista característica do neoliberalismo que seria imposta no país a partir do início da ditadura. A canção se tornaria um hino da juventude à época. As flautas proeminentes intercalam com a escaldante guitarra de Gato e, ao final, uma outro de mais de um minuto e meio apenas de percussões e bateria.


A quarta música, La Quebra Del Ají, já leva consigo um tempero do rock progressivo que o grupo incorporaria de maneira mais substancial em seus próximos trabalhos. A bateria é intensa e o solo de guitarra, lisérgico. 


Los Jaivas 1971
Los Jaivas em 1971. (Foto: Reprodução/UDP)

O lado B apresenta um contraste marcante em relação ao primeiro bloco do LP, seguindo uma direção mais livre e de padrão fragmentado, assim como em seu antecessor, El Volantín. Começa com a experimental Ciclo Vital, um visceral improviso percussivo que se estende por mais de cinco minutos. Em seguida, a breve El Pasillo Del Cóndor, de apenas 25 segundos, traz uma levada andina minimalista.


O álbum se encerra com sua música mais ousada: Los Caminos Que Se Abren, de quase dez minutos. Guitarras errantes e pianos dissonantes flutuam sobre a hipnotizante levada de bateria, criando um clima surrealista e sombrio, intensificado pelos ornamentos de violino que surgem gradualmente até o final da faixa. Soa como um verdadeiro “krautrock andino".


El Volantin e La Ventana são frutos de uma busca, uma exploração coletiva de incorporação das sonoridades da América Latina. São os dois álbuns do grupo que mais carregam essas características. O retrato de uma banda em amadurecimento e reconhecimento da própria identidade e história, em contraponto a se curvar aos pés de uma identidade imperialista soberana. As Veias Abertas da América Latina de Galeano permanecem atuais, mas a cultura de seu povo é eterna.   

Para que viver tão separados se a terra nos quer unir? Se o mundo é um e para todos, todos juntos vamos viver. - Trecho de Todos Juntos.





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