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Almendra e a gênese do rock argentino

  • Foto do escritor: Eduardo Raddi
    Eduardo Raddi
  • 8 de set. de 2025
  • 5 min de leitura

No dia 29 de novembro de 1969, quatro jovens músicos lançaram a semente que germinaria a cena do rock argentino.


Almendra 1969
Almendra. (Foto: Reprodução/lastfm)

No final dos anos 1950 e início dos anos 1960, grande parte da música “mainstream” na América Latina seguia os moldes da cultura de massa norte-americana, principalmente pelo idioma. Essa barreira começou a ser quebrada no México, com o surgimento de bandas como Los Teen Tops, Los Locos del Ritmo e Los Black Jeans, que cantavam pop e rock em espanhol, inicialmente interpretando artistas estadunidenses e depois compondo faixas próprias. Curiosamente, essas bandas conquistaram mais sucesso na Argentina do que em seu país de origem. Independente de se tratar de plágio ou genialidade, essa cena foi um importante alicerce para o rock em toda a América Latina.


Em 1966, na Argentina, o grupo Los Gatos, liderado pelo compositor Litto Nebbia, lançou La Balsa, composta por Nebbia e Tanguito. Considerada a primeira canção de rock em castelhano do país, La Balsa vendeu 200 mil cópias e consolidou a ideia de cantar na língua nativa. O contexto político do golpe militar de 1966, com o general Juan Carlos Onganía no poder, reforçou essa sensação libertadora. Emilio Del Guercio, baixista do Almendra, afirmou em entrevista à série documental Quebra Tudo (2020): “A partir daí viramos ‘fundamentalistas’ do rock argentino”. Um ano depois, nascia o Almendra.


A banda era formada por Luis Alberto Spinetta (guitarra e voz), Emilio Del Guercio (baixo), Rodolfo García (bateria) e Edelmiro Molinari (guitarra). Spinetta conheceu Edelmiro no colégio San Román, em Belgrano, Buenos Aires, e rapidamente se tornaram amigos. Após os ensaios da banda de Spinetta, os dois se encontravam todas as noites para discutir a ideia de formar um grupo “ideal”. Edelmiro tocava com Del Guercio em uma banda que interpretava Beatles, Rolling Stones e Los Teen Tops. As duas formações se fundiram, dando origem ao Almendra.


Luis Alberto Spinetta
Almendra. (Foto: Reprodução/Wikipedia Commons)

O processo de composição se deu em ensaios na casa dos pais de Spinetta. Rodolfo comentou em entrevista ao canal Volver: “Ensaiávamos numa casa de família, o pai dele preparava mate e nos dizia o que achava da música.” Spinetta acrescentou: “Éramos muito determinados. Ensaiávamos de 4 a 5 horas quase todos os dias. Até meus irmãos e pais participavam da escolha dos nomes das músicas.”


Em 1968, a banda assinou com a RCA e lançou seus primeiros compactos: “Tema de Pototo/El Mundo Entre Las Manos” e “Hoy Todo El Cielo en La Ciudad/Campos Verdes”. Embora importantes, essas faixas ainda não refletiam completamente a originalidade do Almendra.


Em 1969, Spinetta e companhia trariam em seu álbum de estreia algo único, inovador, repleto de dinâmica, cor e sensibilidade, quebrando paradigmas no próprio rock argentino e abrindo portas para uma liberdade criativa sem igual até ali, flertando com elementos tanto do jazz e da música erudita quanto do folk e do pop barroco do Sgt. Peppers. 


Numa época em que quase todas as artes de capa de banda eram compostas apenas por uma foto do grupo, a capa de “Almendra” logo se tornou icônica. Spinetta acreditava que a arte da capa tinha suma importância para retratar o conceito do álbum. Ele mesmo fez a arte, que retrata um palhaço chorando com detalhes em rosa. O compositor ainda teve de bater de frente com os executivos da RCA, que custaram a aceitar a ideia.


Almendra

O LP traz 9 faixas:


Muchacha (Ojos de Papel)” – A primeira faixa do álbum, teve sua estreia no teatro Coliseo em Buenos Aires cinco meses antes do lançamento do disco, e logo caiu na boca da juventude. Nela, Spinetta exibe toda a sensibilidade e a capacidade lírica daquele que se tornaria reconhecido como dos maiores compositores da América Latina. Como diria Charly Garcia, trata-se de um gênio. Em 2002 a Rolling Stone Argentina, em conjunto com a MTV, colocou a canção na segunda colocação no Ranking das 100 músicas mais influentes do Rock Argentino.


Color Humano – Como se lê no encarte, a faixa foi concebida a partir de um improviso ao vivo no estúdio. É o momento mais visceral do álbum, com nove minutos de duração é a única composição de Edelmiro Molinari presente no disco. Alguns anos depois, se tornaria o nome de sua banda, Color Humano, formada logo após a dissolução do Almendra.


Figuracion – Nessa composição de Spinetta, Edelmiro assume o baixo e Emilio, a flauta. Um folk com ares barrocos e passagens teatrais, diferente de tudo. A lírica, um dos tantos pontos fortes do Flaco é, como sempre, fantástica.


Ana no Duerme – Um rock n roll de aura psicodélica e sessentista com um único, curto e súbito fragmento de jazz na metade. A faixa conta com participação especial de Santiago Giacobbe (órgão) – pianista do grupo argentino de Jazz Fusion ‘Quinteplus’, que também tocara acompanhando Astor Piazzola.


Edelmiro Molinari, Spinetta,  Del Guercio
Spinetta e cia. (Foto: Reprodução/lastm)

Fermin – Cândida balada cantada por Emilio Del Guercio e composta por Spinetta que retrata com sensibilidade a dura vida de um pobre menino com distúrbios mentais. 


Plegaria para un Niño Dormido – Outra sensível balada composta por Luis, que desta vez assume o vocal principal. O baterista Rodolfo toca piano e todos harmonizam.


A Estos Hombres Tristes – Um rock sincopado e arrojado com a assinatura de Spinetta. Uma verdadeira poesia. “Se tens voz, tens palavras, deixe-as cair”, entona o compositor.


Que el Viento Borró tus Manos – Um folk sofisticadíssimo e cheio de harmonizações e influência de jazz composto por Emilio Del Guercio e cantado por ele mesmo, que também toca flauta na faixa. 


Laura Vá – Novamente a influência da música erudita é presente em mais uma apaixonante poesia de Spinetta. Os arranjos orquestrados e a direção musical são do prolífico guitarrista Rodolfo Alchourron, que depois também trabalharia com o Aquelarre – banda que Emilio e Rodolfo fundariam após o fim do Almendra.


O último LP e o fim do Almendra


Já prestes a se dissolver, o grupo entrou no consenso de deixar um último álbum como legado, afinal, já tinham prontas uma quantidade de faixas razoável, que daria para um disco. A ideia, porém, era ambiciosa. Idealizaram uma opera rock, começando uma vigorosa rotina, compondo uma série de novas canções. No fim das contas, a pressão, a exaustão pela intensa rotina de shows (eram cerca de seis a cada fim de semana) a falta de estrutura, e o desentrosamento, fizeram com que a obra não se concretizasse.


Por fim, resolveram acabar de vez com o grupo e lançar o material que já haviam concebido. Lançado dia 17 de dezembro de 1970, o segundo disco do Almendra é o primeiro álbum duplo registrado na história do rock argentino. Nele, o grupo caminhou em uma direção totalmente diferente do primeiro, apontando para um rock n roll de pegada visceral, remetendo muito a sonoridade de bandas como o Led Zeppelin.


Almendra 1970
Segundo e último disco da banda.

A dissolução do Almendra germinou uma série de projetos que marcaram a história da música argentina.


O baixista Emilio del Guercio e o baterista Rodolfo Garcia fundaram o Aquelarre, e lançaram quatro excelentes discos nos anos 1970.


Edelmiro Molinari, por sua vez, formou o inventivo power trio Color Humano, onde também gravou uma série de álbuns nos anos seguintes, muito influenciado pelo hard rock e rock progressivo. Posteriormente gravaria seu primeiro álbum solo, o groovadíssimo Edelmiro Y la Galetita (1983).


Logo após a saída da banda, Luis lançou seu primeiro disco solo Spinettalandia Y sus Amigos, e logo depois fundaria o Pescado Rabioso. Depois de dois discos antológicos com o Pescado, ele lançaria ainda trabalhos importantíssimos com o Invisible, e depois já com sua banda Spinetta-Jade. Isso sem contar as dezenas de LPs solo, dos quais destaco “A 18’ del Sol” (1977), “Kamikaze” (1982) , e “Pelusion of Milk”(1991).


Em 1980 o grupo se reuniria brevemente e lançaria seu terceiro e último álbum, “El Valle Interior”. A sonoridade é bem diferente de seus dois antecessores da década passada, mas não perde em nada para o segundo LP. Vale a pena conferir. Já munidos de um bom montante financeiro, gravaram o disco em Los Angeles, com produção de primeira linha.

 


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