Quem é Quem: Donato e suas reinvenções
- Eduardo Raddi

- 2 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Pioneiro da bossa-nova ao lado de João Gilberto, Tom Jobim e Johnny Alf, João Donato, é uma das figuras mais importantes da música brasileira, e Quem é Quem é sua obra mais marcante.
Trajetória e A Bad Donato

Nascido em Rio Branco, no Acre, João Donato mudou-se para o Rio de Janeiro aos 11 anos, já tocando acordeom e com a música pulsando em si. Em entrevista a Florestan Fernandes Jr. (TV Brasil), ele relembra a sensação nostálgica de ouvir alguém assoviando uma canção às margens do Rio Amazonas — um gesto simples, mas que o marcou profundamente e o inspirou a tentar reproduzir aqueles sons que tanto o emocionavam. Quatro anos depois, aos 15, já tocava profissionalmente em sessões de improviso com o cantor Dick Farney — das quais Johnny Alf também participava — e atuava no disco de estreia de Altamiro Carrilho.
Já apaixonado pelo piano, Donato formou três bandas: Donato e seu Conjunto, Donato Trio, e o grupo Os Namorados. Com a primeira, lançou seu álbum debutante, Chá Dançante (1956), com direção musical de Tom Jobim.

Em 1958, o compositor mudou-se para Nevada, nos Estados Unidos, a convite de Nanai, ex-companheiro de banda. Quatro anos depois, retornou ao Brasil e, na década de 1960, lançou dois álbuns fundamentais: Muito à Vontade (1962) e A Bossa Muito Moderna de João Donato (1963). Com a Bossa Nova em plena ascensão, Donato voltou novamente aos Estados Unidos, onde permaneceu por mais de uma década, colaborando com nomes do calibre de Chet Baker, Herbie Mann, Tito Puente, Mongo Santamaria e Nelson Riddle.
Embebido de referências, Donato lançou, ainda nos Estados Unidos, o disco que marcaria sua primeira grande reinvenção: A Bad Donato, de 1970. No álbum, o músico reúne um pouco de tudo o que absorveu durante seus anos no exterior, amalgamando elementos do jazz, funk e música caribenha em uma sonoridade vibrante e ousada. Trata-se de um trabalho de experimentações que reflete não apenas sua curiosidade artística, mas também sua liberdade criativa diante de um novo contexto cultural. Com arranjos envolventes e grooves marcantes, o disco revela um Donato inquieto, aberto a novas texturas e ritmos, resultando em uma obra tão surpreendente quanto distante de suas produções anteriores.

O disco foi lançado pela Blue Thumb Records, gravadora norte-americana fundada por Bob Krasnow — que mais tarde se tornaria presidente da Elektra. Além de visionário, Krasnow também era produtor de ninguém menos que Captain Beefheart, ícone da música experimental. Sob esse selo, Donato encontrou o espaço ideal para explorar sua liberdade artística e expandir as fronteiras de seu som.
A segunda reinvenção e o nascimento de um clássico
Em 1972, o compositor deixa o frio da terra do tio Sam – e de um casamento em ruínas – para voltar ao calor das terras tupiniquins, do qual sentia falta. Já no Rio de Janeiro, Donato logo vai à procura de seu amigo, o prestigiado músico carioca Marcos Valle, com o intuito de gravar um novo álbum. Em teoria, seria mais um disco instrumental, porém, certo dia, num encontro casual na casa de Valle, Donato acatou a entusiasmada sugestão do compositor Agostinho dos Santos, e mudou de ideia. Seria seu primeiro álbum em que cantaria, mostrando ao mundo sua suave e singular voz.
Com a ajuda de Valle – que seria coprodutor do disco ao lado de Milton Miranda – Donato consegue então um acordo para gravar o LP na Odeon. O time de músicos recrutados contava com craques como Naná Vasconcelos (percussão); Lula Nascimento (bateria); Hélio Delmiro (guitarra); Maurício Einhorm (harmônica); Novelli (baixo e piano), Bebeto Castilho (baixo), além de Nana Caymmi – que canta na faixa Mentiras; e de arranjadores como Laércio de Freitas, Dori Caymmi e Ian Guest.
Além da questão vocal e das composições, que já configurariam uma mudança na sonoridade de Donato, outro fator determinante para essa metamorfose foi a incorporação do piano elétrico Fender Rhodes, que trouxe uma timbragem moderna ao disco.

O resultado foi um trabalho consistente e sofisticado, composto por 12 faixas, começando com a agridoce ode ao divórcio de Donato em “Chorou Chorou”, canção que termina com um formidável solo de Fender Rhodes, que é seguida pelo sutil retrato da inocência pintado por “Terremoto” – ambas as faixas letradas por Paulo César Pinheiro, que também compôs a letra da sexta música, “Ahie”, que por sua vez é requintadamente arranjada por Dori Caymmi.
O LP conta com três músicas instrumentais, dentre elas “Amazonas” – uma franca homenagem do compositor manauense à sua terra natal – “A Rã” – que se tornaria uma das mais cultuadas do disco, posteriormente sendo letrada por Caetano Veloso e regravada por Gal Costa – e “Me Deixa” – agregada por um ornamentado arranjo e orquestrado pelo maestro Lindolpho Gaya.
O álbum ainda conta com uma groovada versão de “Cala a Boca Menino” (Dorival Caymmi) – arranjada por Donato; “Mentiras”, uma sutil balada orquestrada cantada por Nana Caymmi e “Até Quem Sabe” outra balada agridoce, essa com arranjos de Dori. Na faixa que encerra o LP, Donato canta à saudade, em um lindo tributo a sua filha Jodel.
Terminadas as gravações e concebido o disco, a gravadora Odeon, não satisfeita ou interessada pelo resultado, simplesmente não teve qualquer iniciativa em relação a divulgação do LP. Diz a lenda que Donato subiu na igreja da Glória e arremessou vinis para todos que estavam embaixo, como forma de promover o álbum, que acabou vendendo muito pouco, e, décadas depois, se tornou um clássico.
Tive a enorme honra de conhecer Donato, quando foi homenageado em uma das feiras anuais de discos, que normalmente acontecem no colégio Bennett, no Flamengo. Apesar de breves, as palavras, o jeito e as carinhosas expressões do compositor me fizeram entender de onde vinha aquela paz que invadia meu coração quando ouvia suas canções. João foi um jovem senhor que emanava sensibilidade tanto em sua aura quanto em suas músicas.
Quem é Quem marca a reinvenção da Bossa-Nova pelo gênio de João Donato, e representa um dos mais importantes discos da história de nossa rica e diversa música brasileira.
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