Resenha: Ray Barretto - Acid (1968)
- Eduardo Raddi

- 13 de set. de 2025
- 4 min de leitura
Dos guetos latinos de Nova Iorque para o mundo, Ray Barretto, com sua refrescante musicalidade, se tornou um dos expoentes de uma rica cena latina nos Estados Unidos, que florescia simultaneamente ao movimento hippie.

Nascido no bairro do Brooklyn, em Nova Iorque em 1929, filho de família porto-riquenha, Ray logo se mudou para o East Harlem – bairro latino mais famoso da cidade, também conhecido como ‘Spanish Harlem’ ou simplesmente ‘El Barrio'. O local revelava uma latinidade pulsante em meio à "Grande Maçã" cosmopolita e foi um dos alicerces para a fundação musical do jovem, que foi exposto tanto à música caribenha quanto ao jazz norte-americano.
Já no fim dos anos 1940, a bagagem multicultural de Ray Barretto ganhava novas camadas. Ao descobrir o be-bop, se deparou com Dizzy Gillespie, um dos maiores nomes da história do jazz, e se encantou pelas parcerias do trompetista com o percussionista cubano Chano Pozo. Aquelas gravações, que entrelaçavam a improvisação vertiginosa do jazz com a força rítmica afro-caribenha, abriram diante de Ray um horizonte artístico que moldaria sua trajetória.
Foi tocando ao lado de outro baluarte da salsa que Barretto começaria a ganhar notoriedade. Tito Puente - já respeitadíssimo percussionista e compositor - percebeu o talento fora de série de Ray e o convocou para seu grupo. Foram anos tocando na banda de apoio de Tito e também de José Curbelo – importante pianista de mambo da época.
Já no final dos anos 1950, e início da década de 1960, o percussionista participa de dois álbuns do proeminente pianista de jazz Red Garland, – Manteca (1958) e Rojo (1961). Em 1963, participa do clássico atemporal do guitarrista Kenny Burrel, Midnight Blue, lançado pela Blue Note.
Acid
1968 foi um ano de abundância musical. O Jimi Hendrix Experience lançava o clássico Electric Ladyland, os Beatles apresentavam o monumental White Album, enquanto o Cream despontava com Wheels of Fire. Nos Estados Unidos, efervescia a cena californiana, com nomes como The Doors, Grateful Dead, Jefferson Airplane e Creedence Clearwater Revival. Paralelamente, o soul e o funk também viviam um momento de apogeu, impulsionados por artistas como Aretha Franklin, Etta James e Sly and the Family Stone. Em meio a tamanha prolificidade artística, outros movimentos floresciam, ainda que sem receber a mesma atenção da grande mídia - era o caso da música latino-americana da qual Ray fazia parte.

Quatro anos antes, em 1964, o proeminente músico dominicano Johnny Pacheco fundava, ao lado do promotor Jerry Masucci, a Fania. Mais do que uma simples gravadora, a Fania rapidamente se transformaria em um polo criativo e um verdadeiro selo de identidade para a música latina em Nova Iorque. Para se ter uma ideia da dimensão, sua importância para a música latina foi comparável ao que a Motown e a Stax representaram para a música negra no país: um espaço que não apenas lançou artistas, mas consolidou um movimento cultural, social e político, dando visibilidade e orgulho a comunidades historicamente marginalizadas.
No ano de 1968, em meio à fumaça de ebulição do movimento hippie, a cena latina estava em plena efervescência e a gravadora lançava diversos álbuns de artistas de peso como Willie Colón, Eddie Palmieri, Orquestra Harlow, dentre outros. Foi nesse ano que Ray Barretto lançou seu primeiro álbum pela Fania, intitulado “Acid”.
O nome e a capa, subversivos, representam uma referência ao próprio movimento Hippie e à música ‘psicodélica’, além de servir como forma de chamar a atenção daqueles que ignoravam o que acontecia fora do Folk e do Rock.

O álbum já abre com “El Nuevo Barretto”, interpretada pelo fantástico Adalberto Santiago. “Que doce é o Boogaloo, que doce é a juventude”, entoa o cantor. Ao contrário de alguns artistas da gravadora, Ray tinha uma mente muito aberta em relação ao jazz, e teve muita influência do boogaloo, estilo que o amalgamava à música latina. É uma faixa catártica e dançante, gravada com maestria em apenas um take e capturando perfeitamente o suingue latino em sua essência.
Um tempero Soul é adicionado à mistura nas músicas “Mercy, Mercy Baby”, “A Deeper Shade of Soul” e “Teacher of Love”. Na faixa título, os trompetes de René Lopes e Roberto Rodriguez fazem os toques de jazz se tornarem presentes em meio à sublime aula de percussão polirrítmica de Ray e companhia.
O álbum ainda conta com Sola te Dejaré, uma deliciosa salsa romântica raiz, e, para fechar com chave de ouro, Espíritu Libre faz jus a seu título: uma música experimental regada de improviso e alma, que balança entre o jazz e o ritmo latino de maneira livre.
Acid é um disco saboroso, que emana liberdade através de sua sonoridade que segue refrescante até hoje.
A coisa que eventualmente queremos que aconteça, é que essa mensagem e o sentimento de amor e unidade conquiste o mundo. E que nossa música e cultura latina chegue no mundo todo. - Ray Barretto, para o (imperdível) documentário “Our Latin Thing (Nuestra Cosa Latina)”
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