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The Shape of Jazz to Come: A Revolução de Ornette Coleman

  • Foto do escritor: Eduardo Raddi
    Eduardo Raddi
  • 8 de set. de 2025
  • 7 min de leitura

Ornette Coleman não foi apenas um saxofonista inovador, mas um filósofo da música. Com o profético The Shape of Jazz to Come, ele transformou o jazz e inspirou gerações que vão muito além do gênero.


The Shape of Jazz to Come
Imagem: O Som do Raddi

Nascido em 9 de março de 1930, em Fort Worth, Texas, Ornette Coleman cresceu em um lar humilde, marcado pela pobreza e pela segregação racial. Filho de uma costureira viúva e irmão de três crianças, encontrou na música uma saída: aprendeu sozinho sax alto aos 14 anos e, dois anos depois, sax tenor, inspirado pelo lendário Charlie Parker.


Eu não vim de uma família pobre. Eu vim de uma família podre de pobre, mais do que pobre - Ornette Coleman, em citação do livro “Jazz Masters of the Fifties” (1980) de Joe Goldberg.

Naquela época, a tradição de mentoria no jazz já era comum. No início da carreira, Ornette Coleman recebeu orientação de Red Connors, um saxofonista de Fort Worth sobre quem pouco se sabe. Connors já havia criado sua própria linguagem dentro do nascente be-bop e foi uma grande referência para o jovem músico. Anos depois, Coleman o compararia a Sonny Rollins em entrevista à revista Esquire. A exemplo do icônico pioneiro do jazz Wynston Marsallis, a música de Red Connors ficará apenas em nossas imaginações, pelo fato de que não se sabe o que lhe ocorreu após esse período e não se tem registro algum de sua obra.


Atualmente, Ornette Coleman é muito reconhecido pelo seu trabalho e considerado uma das figuras mais importantes do jazz. Sua sonoridade intensa e extremamente humana, por mais que ainda soe contemporânea, hoje parece um pouco mais “natural” aos ouvidos dos admiradores do gênero. Mas não foi sempre assim. É difícil dimensionar o furor que sua música causou seis décadas atrás.


Ornette Coleman
Coleman. (Foto: Reprodução/Wikipedia Commons)

Nos primeiros passos como músico profissional, Coleman foi rechaçado pela crítica, expulso de jam sessions, e encontrou audiências extremamente hostis, que não reagiam bem ao ouvir seus improvisos ousados e pouco convencionais. A história de sua carreira é uma história de perseverança quase inimaginável.


A trajetória inicial de Ornette Coleman foi marcada por episódios de rejeição violenta. Em uma de suas primeiras apresentações, após improvisar um solo que deixou o público em choque, foi espancado por seis homens na saída do local — seu saxofone foi destruído junto com ele naquela noite.


Outro episódio marcante aconteceu já em Nova Iorque. Durante uma das primeiras apresentações na cidade, Coleman improvisou mais uma vez, e o baterista da própria banda, incomodado com o que considerava um erro, lhe desferiu um soco em pleno palco.


O racismo também marcou profundamente a vida de Coleman, especialmente no Texas. Em Four Lives in the Bebop Business (1966), de A.B. Spellman, o saxofonista relembra um episódio em Fort Worth: depois de um show mal recebido pelo público, um homem lhe estendeu a mão e disse: — “É uma honra cumprimentá-lo, você é um grande saxofonista. Mesmo assim, para mim, continua sendo apenas um negro”


No Texas, ainda era como a escravidão. Você tinha que estar servindo alguém se quisesse fazer algum dinheiro - Coleman, em entrevista para o livro supracitado.

Cansado das restrições e humilhações que sofria no Texas, Ornette Coleman decidiu se mudar para Los Angeles no início da década de 1950. Para se manter financeiramente, trabalhou como ascensorista em um prédio comercial, mas dedicava todo o seu tempo livre ao estudo obsessivo da música, praticando incessantemente e escrevendo ideias que desafiavam os padrões estabelecidos do jazz da época. Mesmo em meio a grandes dificuldades, Coleman não abriu mão de desenvolver uma linguagem própria, marcada por uma liberdade melódica e harmônica que pouco a pouco começava a tomar forma.


Na Califórnia, Coleman teve a oportunidade de tocar por um breve período no quinteto do pianista Paul Bley. Ao lado dele estavam três músicos que se tornariam fundamentais para sua trajetória: Billy Higgins (bateria), Don Cherry (trompete) e Charlie Haden (baixo). Diferente de tantos outros colegas, esse grupo não apenas compreendia a proposta radical de Coleman, mas conseguia se integrar a ela em perfeita sintonia, criando uma sonoridade coletiva inédita.


Don Cherry
Com o parceiro de longa data, Don Cherry. (Foto: Reprodução/Wikipedia Commons)

O entrosamento foi tão intenso que, das apresentações no Hilcrest Club, nasceu o disco Live at Hilcrest Club 1958, um registro ao vivo que, embora ainda não fosse oficialmente classificado como “free jazz”, já trazia todos os elementos que marcariam a revolução musical que Coleman estava prestes a liderar.


No mesmo ano, Coleman lançou seu primeiro álbum solo, Something Else!!!!, e no ano seguinte o LP Tomorrow is the Question!, ambos pela gravadora Contemporary. São ótimos discos e pequenos prelúdios para o estrondo que estava por vir. Na formação de ambos, já estavam Higgins e Cherry.  


Foi em 1959, com a ajuda do pianista John Lewis, que Coleman e Cherry entraram para a Escola de Jazz de Lenox (Massachusetts), e tiveram uma longa residência no Five Spot – um dos mais celebres clubes de Jazz de Nova Iorque. Lá o mundo do jazz passaria a conhecer a inovadora e radical sonoridade do saxofonista. Todas as noites o local enchia, com uma audiência repleta de músicos curiosos que reconheciam Coleman ou como uma lenda ou uma fraude. 


A história trataria de coloca-lo em seu devido lugar.


Ornette Five Spot
Ornette no Five Spot. (Imagem: Reprodução/Wikipedia Commons

Harmolodics: a filosofia de um pioneiro


Para compreender plenamente a obra de Ornette Coleman, é fundamental conhecer também a filosofia que a sustentava. O saxofonista via a música de forma quase sempre alternativa às regras tradicionais da teoria musical. Dessa inquietação nasceu o conceito de Harmolodics, criado por Coleman como um caminho para traduzir em palavras e prática suas ideias.


A filosofia de Coleman se baseava na naturalidade e na espiritualidade do ato musical. Embora tivesse “regras”, seu intuito não era criar um novo dialeto no jazz, mas libertar os músicos para que se relacionassem com a música de forma mais instintiva. Para ele, a intuição deveria prevalecer assim que o instrumentista dominasse os rudimentos e a técnica. A música, defendia Coleman, era antes de tudo uma experiência humana, marcada pelo diálogo entre os integrantes da banda. Essa ideia se manifesta em The Shape of Jazz to Come, onde a confiança e a escuta mútua criam uma unidade espontânea. O próprio saxofonista a descrevia como uma “…filosofia baseada nos instintos humanos…”.


Harmolodics é um sistema profundo baseado em desenvolver seus ouvidos ao lado de sua proficiência técnica em seu instrumento. No início as pessoas achavam que nós não sabíamos tocar, que tocávamos qualquer coisa. Ao contrário disso, nessa filosofia temos que conhecer todos os intervalos possíveis, toda a estrutura de escalas. Harmolodics te dá a liberdade para executar determinada música de maneira diferente cada vez que você a toca. - Don Cherry (Ornette Coleman and Harmolodics – Matt Lavele, 2019) 

The Shape of Jazz to Come


The Shape of Jazz to Come

Lançado cerca de dois meses após Kind of Blue – o disco de jazz mais vendido de todos os tempos – The Shape of Jazz to Come mostra Ornette Coleman navegando em direções sonoras totalmente diferentes e inusitadas para a época. É o álbum que, como diz o título (traduzido bruscamente para “A Forma do Jazz por vir”), redefiniu o gênero, quebrou paradigmas e libertou o jazz de suas restrições formais, germinando então uma nova vertente que ficaria conhecida como “free jazz”. Nela, a filosofia Harmolodics já é amplamente incorporada. 


A ruptura central de The Shape of Jazz to Come está na ausência de acordes. No jazz tradicional, piano e guitarra sustentavam a base harmônica; aqui, essa estrutura desaparece. O álbum flui como uma travessia no mar do improviso, em que o solista guia a embarcação e o restante da banda segue por instinto. Coleman também ousou ao adotar a chamada “afinação natural”: se um instrumento soava fora do tom, a música continuava assim mesmo, transformando a imperfeição em parte da criação. Nessa viagem, o saxofonista contou com companheiros de peso – Billy Higgins, Don Cherry e Charlie Haden – todos conectados à sua proposta radical.


Em Lonely Woman, faixa que abre o LP, Coleman e Cherry harmonizam seus sopros de forma quase “embriagada”, escolhendo notas que soam estranhas, mas criam um clima de mistério, lembrando cenas de filme noir. Enquanto isso, a seção rítmica segue uma levada própria, diferente da dos solistas, resultando em um caos assustadoramente organizado.


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Imagens das sessões do álbum. (Foto: William Claxton)

Em Peace, pouco mais de nove minutos de balada invertida, a bateria e o baixo mantêm uma suavidade contrastante com os solistas, que permanecem mais contidos, mas ainda exploram escolhas de notas inesperadas que reforçam o clima enigmático. Já Eventually é a faixa mais frenética do álbum, com uma profusão de solos interagindo intensamente. Por fim, Congeniality alterna entre bebop veloz e otimista e breves trechos nostálgicos, criando uma experiência dinâmica e imprevisível.


O título do álbum é baseado no livro “The Shape of Things to Come” (1933) do inglês H.G. Wells.

É como uma desorganização organizada, ou tocar o errado de um jeito certo. E te pega emocionalmente. É isso que Coleman significa para mim - Charles Mingus (citação que consta em seu site oficial)

A inegável influência


Coleman se tornou uma referência que quebrou barreiras. Teve um enorme impacto em seus contemporâneos, e, na época, fazendo música de modo sem precedentes no Jazz, dividiu opiniões. Como disse o jornalista Michael J. West em sua coluna no Washington Post, “A música de Ornette Coleman inicialmente polarizou o jazz, e a partir da segunda metade da década de 1960 se tornou parte inseparável de seu DNA”.  


Miles Davis escreveu em sua autobiografia (1989) que, em 1960 “…um novo alto saxofonista chamado Ornette Coleman chegou e virou o mundo do jazz de cabeça para baixo…”. John Coltrane ia todas as noites ao Five Spot para ouvi-lo, abertamente abraçou sua filosofia e aprendeu com ele. Thelonious Monk o chamou de maluco. Sonny Rollins e Jackie Mclean tocaram ao seu lado e absorveram e adaptaram sua filosofia para uma linguagem própria dentro de seus próprios grupos. Max Roach sempre o atacou de maneira efusiva. Roy Eldridge – fantástico trompetista da velha guarda – se tornou imediatamente um fã. Charles Mingus, apesar de, por vezes criticar sua técnica, via Coleman como original e importante. Archie Shepp teve o texano como uma de suas principais referências. Wayne Shorter disse em entrevista para a revista Billboard: “Coleman é um dos meus astronautas favoritos”. Albert Ayler foi um de seus maiores discípulos, obcecado por sua música.


Sua relevância não se restringiu ao jazz. O músico influenciou nomes que vão desde Sonic Youth e Patti Smith até Captain Beefheart, King Crimson e Grateful Dead – em 1993, Coleman fez uma jam com a lendária banda californiana. Outro grande fã inveterado era Lou Reed.



Ornette Coleman Pullitzer
Lee C. Bollinger entregando o Pulitzer para Ornette Coleman em 2007. (Foto: Reprodução/Pullitzer.org)

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