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Uma viagem pela carreira de Ginger Baker

  • Foto do escritor: Eduardo Raddi
    Eduardo Raddi
  • há 1 dia
  • 7 min de leitura

Um dos maiores bateristas de todos os tempos, referência para Neil Peart e Stewart Copeland, o explosivo Ginger Baker teve uma carreira intensa e inovadora.



Terry Lightfoot and his Band – Tradition in Color (1958)


No ano anterior, Ginger Baker já havia integrado alguns compactos na banda de apoio de Bob Wallis, incluindo um EP, mas foi em 1958 que o baterista participou de um LP pela primeira vez, tocando no grupo do clarinetista Terry Lightfoot. É um álbum de Dixieland, ou jazz tradicional, que revela uma faceta menos conhecida de Baker, bem distante da sonoridade explosiva que marcaria seus trabalhos mais famosos com Cream e Blind Faith.


Graham Bond Organisation – There’s a Bond Between Us (1965)



Quando Charlie Watts deixou o Alexis Korner’s Blues Incorporated para tocar nos Rolling Stones, em 1962, Ginger o substituiu. No grupo de Alexis, o baterista teve seu primeiro contato com Jack Bruce – baixista que o acompanharia em suas duas próximas bandas. Em uma apresentação, Bruce – nas próprias palavras de Baker – os “encheu o saco para tocar. Não ia embora nem fodendo, então deixamos”. Jack era tão brilhante, que depois da ocasião foi chamado para integrar o conjunto.


Depois de um breve tempo tocando com Alexis, Ginger e Bruce foram recrutados por Graham Bond para o “Graham Bond Organisation” ao lado do guitarrista Dick-Hestall Smith. Em 1965, o grupo lançou dois álbuns: “There’s a Bond Between Us” e “The Sound of 65”. Ambos, trabalhos que misturavam o estilo e estética do movimento Mod – que começava a ganhar popularidade na Inglaterra – ao jazz, que era a principal formação musical dos instrumentistas do grupo.


Nessa altura, a sessão rítmica já era uma das mais cultuadas e cobiçadas da cena. Contudo, o Graham Bond Organisation era uma banda que claramente tinha tempo de expiração curto. Apesar do incrível entrosamento musical de Baker e Jack, eles não se aguentavam. O temperamento de Ginger era péssimo e o líder da banda, Graham, estava muito viciado em heroína para manter qualquer tipo de rédea no grupo. Em uma apresentação, Baker se descontrolou porque Bruce teria tocado durante o seu solo de bateria. Ele desferiu vários socos no rosto do baixista e o ameaçou com um estilete.


“Ginger me parecia um homem absolutamente louco…” Jack Bruce

Cream (1966 – 1968)


Depois de um período relativamente bem-sucedido com o Graham Bond Organisation, Ginger Baker decidiu que era hora de formar sua própria banda. Logo pensou em Eric Clapton e o convidou para a empreitada. O guitarrista, de saída do John Mayall & the Bluesbreakers, também queria montar seu próprio grupo. Para a surpresa de Baker, Clapton sugeriu Jack Bruce como baixista — sugestão que o baterista, mesmo contrariado, acabou aceitando. Nascia então o Cream.


Trata-se de uma das bandas mais importantes e influentes da história do rock. O Cream ajudou a definir o conceito de “power trio”: três músicos virtuosos, com fortes referências fora do gênero, que se fundem em uma linguagem própria. Clapton trazia o blues de Muddy Waters e B.B. King, enquanto Bruce e Baker vinham da liberdade do jazz de Charles Mingus e Art Blakey.


Fresh Cream, Disraeli Gears e Wheels of Fire


Em sua breve existência de pouco mais de dois anos, o Cream lançou três LPs de estúdio e uma série de registros ao vivo. O disco de estreia, Fresh Cream (1966), surge em um momento de ebulição do blues britânico e do pop barroco, mesclando de forma explosiva blues, pop e rock, sempre atravessados pelo tempero jazzístico de Ginger Baker — evidenciado, sobretudo, em seu solo em “Toad”.


O segundo trabalho, Disraeli Gears (1967), frequentemente apontado como o auge da banda, é um dos marcos de um dos anos mais frutíferos da música moderna. Aqui, o power trio expande suas possibilidades e experimenta novas sonoridades, resultando em um álbum singular.

Além de consolidar o formato de power trio, o Cream também ajudou a popularizar a lógica das “jam bands”: no palco, a partir de improvisos, transformavam e estendiam suas músicas, tornando cada apresentação única.



O terceiro lançamento, Wheels of Fire (1968), é um álbum duplo que sintetiza bem essa proposta — com um disco de estúdio e outro ao vivo, gravado no Winterland Ballroom, em São Francisco, trazendo versões expansivas de faixas como “Spoonful” e “Toad”.


Apesar do sucesso meteórico, lotando grandes arenas como o Madison Square Garden, a banda chegou ao fim ainda em 1968, em meio a tensões constantes. A relação entre Baker e Jack Bruce era insustentável, e Eric Clapton também já não suportava o clima interno. Como despedida, foi lançado Goodbye (1969), já após o fim do grupo. Nos anos seguintes, ainda sairiam dois registros ao vivo: Live Cream e Live Cream Volume II.


Não havia arquétipo para Ginger Baker…ele era o Arquétipo. - Neil Peart

Billy Preston – That’s the Way God Planned it (1969)



Essa é uma participação pouco conhecida de Ginger Baker em um LP de Billy Preston. O álbum foi registrado em duas sessões distintas, com formações e contextos bastante diferentes e traz uma mistura de rock e soul.


A primeira ocorreu no fim de 1968, produzida por Wayne Shuler para a Capitol Records, com músicos de estúdio não creditados (faixas 2, 7 e 11). Já a segunda sessão aconteceu em 1969, poucos meses após a participação de Preston em Let It Be, e foi produzida na Apple Records por George Harrison. O time reunia Eric Clapton na guitarra, Keith Richards no baixo e, claro, Baker na bateria e percussão (faixas 1, 3, 4, 5, 6, 8, 9 e 10).


Blind Faith – Blind Faith (1969) 



Um dos trabalhos mais conceituados da carreira de Ginger Baker, o Blind Faith era um verdadeiro supergrupo, reunindo Eric Clapton e Baker, vindos do Cream, ao frontman do Traffic, Steve Winwood, e o baixista do Family, Ric Grech. Clapton, no entanto, não ficou muito animado com a ideia de ter Baker novamente na mesma banda — seu temperamento já era bem conhecido. O nome “Blind Faith” surgiu de forma irônica, refletindo suas dúvidas quanto ao sucesso do projeto.


O quarteto lançou apenas um disco, Blind Faith — e que disco. Bem diferente do que faziam em suas bandas de origem, o álbum combina o talento composicional de Winwood com a versatilidade instrumental de Baker, Clapton e Grech.

Após a turnê, Baker passou alguns meses no Havaí e na Jamaica tentando, sem sucesso, se afastar das drogas. Quando retornou, o grupo já havia se dissolvido: Clapton estava em turnê com Delaney & Bonnie, enquanto Winwood havia retomado as atividades com o Traffic.


“Ginger era bem desdenhoso e antissocial…seriamente antissocial. Mas ele tinha o dom”. - Eric Clapton

Ginger Baker’s Air Force – Ginger Baker‘s Air Force I e II (1970)


Após a desilusão com o Blind Faith, Ginger Baker decidiu investir em um projeto mais ambicioso e formou sua própria big band. Tratava-se de um coletivo de formação variável, que durou pouco mais de um ano e rendeu apenas dois discos. Entre os diversos músicos envolvidos, passaram nomes como Graham Bond, Steve Winwood, Denny Laine (The Moody Blues, Wings) e Chris Wood (Traffic). Na sonoridade, uma fusão de rock, jazz e ritmos africanos, conduzida por uma instrumentação rica em sopros, flauta, percussões, múltiplas baterias, órgão, guitarras, baixo e vocais de apoio - um verdadeiro amalgama musical.


Fela Kuti and the Africa 70’ with Ginger Baker – Live! (1971)



Em 1971, o ex-baterista de Cream e Blind Faith, Ginger Baker, comprou um Range Rover e atravessou o deserto do Saara rumo a Lagos, em busca de novas sonoridades. Lá, montou o primeiro estúdio de 16 canais do país, o Arc Studio, e se aproximou de Fela Kuti, o que resultou na união de dois músicos tão temperamentais quanto brilhantes.


Com ele, Baker gravou Why Black Man Dey Suffer (1974) e Live! with Ginger Baker, além de contar com a participação de Kuti em seu disco solo Stratavarious. A banda de Fela ainda incluía o lendário Tony Allen, pioneiro do afrobeat — e, no álbum ao vivo, Baker e Allen protagonizam um verdadeiro diálogo rítmico, marcado por síncopes impressionantes.


Nesse mesmo período, Paul McCartney esteve em Lagos para gravar Band on the Run. A convite de Baker, participou de sessões no Arc Studio e chegou a produzir uma faixa ali (“Picasso’s Last Words”), que ainda contou com a participação do baterista na percussão.


Com o tempo, o estúdio de Baker perdeu espaço para a EMI, que avançava sobre o mercado musical nigeriano. Somado a isso, o cenário político do país se deteriorava rapidamente. Cerca de dois anos após sua inauguração, o Arc foi invadido por soldados armados e Baker se viu forçado a deixar o país às pressas. Como havia chegado, partiu novamente em seu Range Rover.

A viagem foi documentada no filme “Ginger Baker in Africa do diretor Tony Palmer.


Ginger Baker – Stratavarious (1972)


 Stratavarious talvez seja o trabalho que melhor sintetiza a fase mais aventureira de Ginger Baker. Gravado em Lagos, o disco nasce diretamente de sua imersão na música africana, incorporando ritmos e texturas que ele absorveu no convívio com Fela Kuti.


O resultado é uma fusão orgânica entre rock, jazz e elementos africanos, conduzida pelo protagonismo rítmico característico de Baker. É um álbum que evidencia sua capacidade de traduzir influências diversas em uma linguagem própria e é, por isso, peça-chave em sua discografia.


The Baker Gurvitz Army – Elysian Encounter (1975) 



Mais um capítulo relativamente obscuro na trajetória de Ginger, o Baker Gurvitz Army foi formado ao lado dos irmãos Paul Gurvitz e Adrian Gurvitz, fundadores da cultuada Gun. Com eles, Baker lançou três álbuns de estúdio: Baker Gurvitz Army, Elysian Encounter e Hearts on Fire. Os dois primeiros se destacam por uma sonoridade que mistura hard rock tradicional com elementos de rock progressivo, evidenciando mais uma vez a versatilidade do baterista.


As falas de Eric Clapton, Jack Bruce e Neil Peart citadas ao longo do texto foram retiradas do documentário Beware of Mr. Baker, dirigido por Jay Bulger — fica a recomendação.

Vale citar também a modesta participação de Ginger Baker em Band on the Run, clássico de Paul McCartney, em que toca percussão na faixa “Picasso’s Last Words”. O disco foi gravado em Lagos, e o baterista insistiu para que fosse gravado em seu estúdio. Entretanto, Paul tinha um contrato com a EMI. Como forma de agradecimento, deixou que Ginger contribuísse com a faixa.

 
 
 

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